Maternidade e câncer de mama: servidora consegue engravidar após tratamento contra a doença
Diagnosticada com câncer e tendo ficado infértil, Tatiana Bentes voltou a produzir hormônios e engravidar
A servidora pública Tatiana Bentes redescobriu o significado da vida através da gravidez após o tratamento de um câncer de mama triplo negativo. Ela foi diagnostica com uma das formas mais invasivas da doença quanto tinha 34 anos. A notícia foi choque para ela e a família, mas não apenas pela condição de saúde. Na época, Tatiana tinha um filho de três anos, Paulo Henrique, e já sonhava em engravidar novamente, mas o diagnóstico parecia colocar um fim ao sonho.
“Eu era muito jovem e a primeira coisa que me disseram é que se tratava de um dos tipos mais agressivos de câncer e que eu não podia mais engravidar. Mas eu já era mãe e isso me deu forças pra encarar o tratamento” contou.
O tratamento levou nove meses, diversas sessões de químio e radioterapia somadas a duas cirurgias. Quando terminou Tatiana estava infértil, com níveis de hormônio de uma mulher na menopausa, mas depois de aproximadamente um ano ela voltou a menstruar então decidiu fazer exames e eles apontaram que ela havia voltado a ser fértil. Para a família foi uma grande alegria e para ela foi a certeza de que o sonho de gerar uma vida de novo ainda era possível.
Desde a confirmação, o procedimento foi cuidadoso e exigiu paciência da Tatiana, foram quatro anos de espera para que o corpo pudesse se recuperar dos efeitos causados pelo tratamento contra o câncer. Depois deste período, engravidou, mas o bebê ficou preso na trompa uterina e sofreu um abordo espontâneo.
A perda foi difícil de ser superada e o cenário parecia piorar; os médicos disseram que outra gravidez teria o mesmo resultado pois ela só tinha óvulos saudáveis do mesmo lado do útero onde o feto ficou preso, as chances da situação se repetir eram muito altas. Foi exatamente aí que tudo mudou.
“Um mês depois eu estava grávida de novo e hoje aqui está ela, Giovanna, com três anos. O meu psicológico melhorou muito porque foi quando eu realmente me senti curada, gerando outra vida em mim” contou Tatiana.

Depois de um ano de infertilidade, Tatiana engravidou de Giovanna. (FOTO: DANIEL BRANDÃO/FREELANCER)
Da tristeza à felicidade
“Eu costumo falar que o câncer foi minha cura porque mudou completamente a minha vida, me mostrou que ela passa rápido e eu aprendi a dar valor ao que realmente importa”, relatou.
Além de gerar uma vida, Tatiana também aprendeu a reconsiderar a forma como lidava com as prioridades da própria vida. Antes da doença ela imaginava que viveria pelo menos 100 anos (como a avó, falecida com 107), que o trabalho é importante, porém não mais do que aproveitar o tempo com a família, do que ver os filhos crescerem e construir boas memórias com eles. Foi uma mudança difícil, segunda ela, contudo extremamente necessária.
“Eu não podia continuar sendo aquela Tatiana que trabalhava 12 horas por dia, que dava muito valor a coisas materiais e caixão não tem gaveta” disse.
O câncer não pode parar sonhos
Ser diagnosticada com câncer de mama pode ser uma notícia difícil, especialmente para as mulheres que desejam ter filhos. As dúvidas e preocupações sobre o impacto da doença na fertilidade, na gravidez e na amamentação são frequentes. Porém, independente do tipo de tumor ou de onde ele está localizado, ter câncer de mama não precisa ser o fim da linha quando falamos em gestação, é o que afirma o oncologista William Fuzita.
“Graças aos avanços da medicina e às diversas opções disponíveis, a maioria das mulheres que enfrentaram a neoplasia podem realizar o sonho da maternidade. Fertilidade e o desejo de aumentar a família é um assunto primordial a ser discutido”, ressaltou o médico.
O médico se baseou em um estudo divulgado pelo New England Journal of Medicine, uma das principais publicações da área médica do mundo, o POSITIVE trial, evidenciou que mulheres com câncer de mama inicial, que interromperam seu tratamento anti-hormonal para engravidar, não apresentaram maior risco de retorno do câncer. A pesquisa foi feita com pacientes de 42 anos ou menos, em estágios I, II e III da doença e mostrou que é possível interromper a endocrinoterapia após uso entre 18 e 30 meses, liberando as mulheres mais cedo para a gestação.
As descobertas fornecem informações fundamentais para respaldar o aconselhamento sobre a fertilidade de quem enfrenta a doença, e orienta na tomada de decisões sobre o futuro familiar.
Fertilidade
A fertilidade é algo que requer maior atenção neste processo, em especial na preservação da capacidade de gerar uma vida. Atualmente, as estratégias disponíveis para mulheres englobam a criopreservação de óvulos e embriões; de tecido ovariano e transposição ovariana.
O melhor procedimento deve ser escolhido, dentre os disponíveis, a depender de características e desejo da paciente. A criopreservação de embriões, por exemplo, é considerada uma prática padrão e é comumente realizada antes do início do tratamento contra o câncer, preservando a capacidade de engravidar no futuro.
Amamentação após o câncer de mama
Algumas mulheres podem não conseguir amamentar após o tratamento do câncer de mama, dependendo da cirurgia realizada e se fizeram ou não radioterapia. Isto pode incluir a redução da produção de leite nessa mama, bem como alterações estruturais que podem tornar o momento doloroso ou dificultar a pega do bebê na mamada.
É importante ressaltar que a amamentação após o tratamento não aumenta o risco de recorrência da doença, mas também não é aconselhada se a paciente estiver em terapia endócrina, pois alguns medicamentos podem passar para o leite materno e afetar o bebê.