Projeto ‘Dias de Paz’ compartilha experiências sobre gênero e diversidade em sala de aula
Durante as atividades, alunos do 1º ao 5º ano compartilham experiências e discutem temas como violência, gênero e diversidade sexual.
Em uma escola do bairro Cidade de Deus, na Zona Norte de Manaus, ouvir a colocação do colega para construir seu próprio pensamento, priorizando o respeito às diferenças de cada um, já é algo comum. Essas atitudes, na verdade, são primordiais para o desenvolvimento do projeto ‘Dias de Paz’, implantado há dois anos na Escola Municipal Biólogo Adolpho Ducke. Durante as atividades, alunos do 1º ao 5º ano compartilham experiências e discutem temas como violência, gênero e diversidade sexual.
Os vários modelos de família foram o tema gerador da discussão na aula da última quarta-feira. Idealizadora do projeto, a professora Ticiana dos Reis mostrou imagens de famílias de diferentes culturas, compostas por pais separados, por casais que decidiram não ter filhos, por mães e pais que criam os filhos independente de parceiros e por casais formados por pessoas do mesmo sexo.
Afinal, existe um modelo de família perfeita? Uma criança pode ter duas mães ou dois pais? O conceito de família mudou e a palavra ganhou até novo significado no dicionário Houaiss: “núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”. E foi exatamente a esta conclusão que os alunos do 4º ano ‘D’ chegaram.
Quando a professora questionou sobre os tipos de família que mais chamou atenção, a maioria dos alunos citou a família constituída por pais separados, ou com filhos fora do casamento. Sinal de que ter pais do mesmo sexo já não é um assunto tão polêmico na escola. Uma das alunas, inclusive, levantou a mão para contar que tem duas mães. Ela chegou a usar um termo pejorativo, mas a professora Ticiana interviu e ensinou não só a ela, mas a todos os outros alunos, sobre os termos para denominar a orientação sexual.
‘Além da sala de aula’
“Este projeto começou em 2014 porque a indisciplina entre os alunos estava muito ligada a questões de diferença de gêneros. Em 2015 tivemos um aluno homossexual na escola e essa necessidade foi mais evidente porque ele sofreu preconceito. Hoje a gente vem trabalhando mais para prevenir a discriminação e esclarecer sobre os vários pontos em que a sociedade mudou”, explicou Ticiana, que é professora de educação física.
Além dos temas envolvendo gênero e diversidade, o assédio por meio das drogas, abuso sexual e outros tipos de violência também são discutidos em sala de aula. Entretanto, a professora também notou a necessidade de trabalhar os assuntos com os pais e com os próprios professores da escola. “Houve muita resistência. Infelizmente quando a gente fala em diversidade de gênero as pessoas acham que estamos querendo ensinar o aluno a ser homossexual ou heterossexual. Na verdade, a gente quer ensiná-lo a respeitar que a sociedade é formada por vários tipos de pessoas”, frisou.
A partir do trabalho envolvendo toda a escola e a comunidade, a diferença no comportamento entre meninos e meninas já é percebido, segundo a professora. “Para desconstruir a história de que menino só faz coisa de menino e menina só faz coisa de menina, uma das ações do projeto foi a escolinha de futsal e dança, onde várias meninas manifestaram a vontade de fazer o futsal e vários meninos manifestaram a vontade de praticar a dança”.
Com apenas 10 anos, o estudante Omar Vitor de Almeida Santos já aprendeu sobre estas diferenças. “Acho o projeto interessante e aprendi que é muito importante ter uma família, mesmo o pai sendo separado da mãe ou do mesmo sexo. O bom é ser muito feliz com a família que se tem”
Análise – Iolete Ribeiro – Doutora em psicologia – Universidade Federal do Amazonas (Ufam)
É na escola que ampliamos nossa capacidade de compreensão do mundo construindo conhecimentos embasados em saberes fundamentados. No cotidiano, os jovens tem contato com um grande conjunto de informações e necessitam de ferramentas de análise para se posicionarem frente a eles. Portanto todos os temas que existem na vida devem caber na escola. Numa sociedade onde diariamente são registrados casos de violência contra a mulher e abuso sexual de crianças e adolescentes é de suma importância estudar sobre gênero na escola. Construir uma sociedade pacífica é responsabilidade de todos. Há uma espetacularização da violência. Temos que oferecer recursos para a interpretação dessa realidade e para a construção e relações mais respeitosas, fraternas e solidárias.