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A Crítica
Manaus

Reconquista dos ícones ambientais de Manaus

Projetos como o Mata Viva e a proteção ao sauim-de-coleira representam a luta de pesquisadores e ambientalistas pela preservação da identidade natural da capital amazonense.

Publicado em 24/10/2025 às 21h27
Reconquista dos ícones ambientais de Manaus
Foto: Arquivo

A identidade amazônica da maior capital do icônico bioma está ameaçada. A escalada de ocupação da área urbana consome a floresta como um câncer, sufocando a vida silvestre e prejudicando a manutenção dos recursos naturais, que resistem. Mas a flora e a fauna não lutam sozinhos. Há aqueles que batalham diariamente pela reconquista desses símbolos ambientais manauaras.

“Quem já viu um igarapé limpo?” É com esse questionamento que Jó Farah, idealizador do Instituto Mata Viva, abre os dias de passeio de estudantes e universitários que passam pelo Igarapé da Água Branca, o único que se mantém limpo no perímetro urbano da capital amazonense. Desse incômodo, da falta de referência ambiental dos mais jovens, surgiu o projeto para dar voz e visibilidade ao Igarapé Água Branca, uma tentativa de atenuar o problema de imagem de uma cidade que se esqueceu da própria natureza.

“Manaus é uma cidade que não cuidou dos seus igarapés, nem das suas florestas urbanas. Quando você pesquisa ‘igarapé de Manaus’ no Google, só aparecem tragédias: enchentes, lixo, esgoto, casas arrastadas, desbarrancamentos. Não há notícia boa. Quando pergunto quem já viu um igarapé limpo na vida, ninguém levanta a mão, nem as crianças, nem os universitários. Estamos formando uma geração de manauaras que nunca viu um igarapé limpo”, lamenta o pesquisador.


Mata Viva

Além da escolinha ambiental que ensina na prática crianças da rede pública o que significa cuidar da cidade, o Projeto Mata Viva é um registro da história do Igarapé Água Branca. Uma reparação necessária, segundo Jó, para a manutenção da memória ambiental da cidade, para que cada manauara saiba quem destrói a natureza, como destrói e o que pode acontecer se nada for feito.

“A sociedade precisa se reconhecer como parte desses espaços. Falta o sentimento de pertencimento. Muita gente que vive nas áreas degradadas não se sente dona do lugar, como se pudesse ser retirada a qualquer momento. O poder público não investe em transformar esses locais em espaços de orgulho e identidade.”

O Igarapé Água Branca é contraponto da degradação, algo fundamental para lembrar que Manaus ainda tem o que salvar, fio de esperança que mostra o caminho para a manutenção dos cursos d’água na cidade. Para Jó, uma das maiores injustiças é colocar a culpa nas pessoas que vivem às margens dos igarapés, pois falta continuidade nas políticas públicas devido ao desmonte de projetos governo após governo. Com isso, o dinheiro público desperdiçado e o meio ambiente destruído.

“O poder público nunca priorizou o meio ambiente. Isso não é um problema deste governo ou do anterior, é histórico, vem desde Eduardo Ribeiro. Manaus é uma cidade que cresce errado: cresce horizontalmente, expandindo suas fronteiras até onde houver floresta ou igapó, sem planejamento. É fácil culpar o ribeirinho, chamá-lo de sujo ou mal-educado, quando ele vive sem coleta de lixo, sem infraestrutura, sem alternativa de moradia”, alerta Farah.


Símbolo de resistência em meio à degradação

Mas não apenas os igarapés são símbolo da resistência da mata em Manaus. Nas resilientes áreas de proteção ambiental, um pequeno primata carrega nas costas o peso simbólico da cidade. O sauim-de-coleira, animal-símbolo da capital amazonense, resiste ao avanço desenfreado da área urbana que sufoca a fauna e a flora.

O sauim é um primata que habita a região amazônica e tem seu habitat especialmente concentrado na região metropolitana de Manaus. Reconhecido como símbolo da cidade pela Lei Municipal nº 8101/2025, o pequeno macaco tem uma função essencial: espalhar sementes ingeridas durante a alimentação, garantindo a regeneração das florestas secundárias e manutenção primária.

A preservação da espécie, conforme explica o pesquisador e primatólogo Maurício Nogueira, presidente do Instituto Sauim-de-Coleira, é mais que um desafio ambiental — é uma questão socioeconômica, pois a estrutura de proteção ambiental do animal ainda é frágil. Na legislação atual, as Áreas de Preservação Ambiental (APAs), principal moradia dos sauins, são permeáveis à perturbação humana devido à falta de gestão das unidades de conservação.


Sauim-de-coleira está ameaçado de extinção. Foto: Divulgação/ISC ()

 

“Apesar da gente ter um estado com boa cobertura florestal, é aqui que está concentrada a maior parte da população. Isso acaba criando um impacto muito grande, porque as pessoas precisam de espaço para moradia e a gente precisa produzir alimento para todo mundo. Isso gera uma demanda enorme por transformação de habitat natural”, contou.


Sauim-de-coleira resiste ao avanço urbano de Manaus

O primatólogo e presidente do Instituto Sauim-de-Coleira, Maurício Noronha, destacou que a falta de consciência do ser humano como parte da floresta não é um problema apenas do Amazonas. O Brasil inteiro sofre disso e a maioria das pessoas não tem ideia do patrimônio natural que possui.


Maurício Noronha, especialista em primatologia. Foto: Nilton Ricardo 

“Conhece mais os animais da África do que os nossos. Só se conserva o que se conhece e o que se ama. A preservação dessa espécie [sauim] passa pelo benefício de tornar Manaus mais resiliente às mudanças climáticas extremas. Isso não é bom só para o sauim, é bom para toda a sociedade”, completou o presidente.