Serviço Público: Deficientes à espera de uma prótese
Arcângelo Rocha Batista usa o equipamento desde 1998 e precisa trocá-los periodicamente; a última peça, porém, transformou-se em via crucis
Perder uma perna em um acidente de trânsito acidente de trânsito é traumático e muda a vida de qualquer um. Mas, depois de conseguir voltar a andar e conquistar uma vida normal com o auxílio de uma prótese, ficar sem ela é como sofrer um novo acidente e perder outro membro. Pelo menos, é assim que o monitor de segurança Arcângelo Rocha Batista, de 32 anos, vem se sentindo nos últimos sete meses, período em que tenta se adaptar novamente às muletas, aposentadas há 12 anos.
É que, desde março, quando recebeu a última prótese ortopédica do Estado, o monitor está esperando que sejam corrigidas irregularidades no produto entregue a ele, que está em desacordo com as especificações recomendadas pelo médico e, também, definidas pelo edital de licitação lançado pelo Estado para a aquisição dos equipamentos.
Enquanto o problema não é resolvido, a prótese segue “encostada” em casa e o paciente precisa recorrer às muletas, o que, segundo ele, dificulta muito a locomoção. “É como se eu tivesse perdido minha perna pela segunda vez. Sem a prótese, não consigo fazer mais nada e me sinto limitado, fico deprimido. Esses meses foram muito difíceis”, relatou.
Arcângelo é usuário de prótese ortopédica na perna esquerda desde os 19 anos. A primeira ele recebeu do Governo do Estado dois anos depois de ter a perna amputada após se envolver em um acidente de trânsito, em 1998. De lá para cá, foram duas trocas de equipamento por solicitação do médico solicitação do médico , todas sem contratempos.
Mas, em novembro de 2011, começaram a surgir problemas com a prótese. Diante do desgaste do equipamento que ele estava usando, o médico recomendou nova substituição, desta vez por um modelo mais moderno e durável. Segundo o monitor, o requerimento por uma nova prótese foi feito no dia 5 de novembro de 2011, mas a espera pelo equipamento durou 16 meses, só terminando no dia 19 de março de 2013.
“Esse mais de um ano que fiquei usando a prótese inadequada acarretou muitos problemas de saúde. Problemas de coluna, quadril, sofri muito com os inchaços e as dores pelo corpo. Não tinha mais condições de uso, estava me prejudicando, por isso hoje estou sem prótese nenhuma”, explicou.
Mas á chegada da prótese não deu fim aos problemas. Pelo contrário: no primeiro dia em que tentou usar o equipamento, percebeu que ele estava irregular e não se ajustava à coxa por um problema na válvula. Desde então, foram quatro visitas à manutenção, sem a correção do problema nem a entrega de uma nova prótese. “Procurei até o Ministério Público Estadual, que deu 60 dias para eles resolverem o problema, mas o prazo já venceu e até agora nada. E o pior é saber que pagamos por algo que não podemos usar, pois sai dos cofres públicos ”, reclamou.
Preço e qualidade diferentes do previsto
Não bastassem a demora para a entrega e a falta de manutenção do equipamento, os produtos usados na confecção da prótese ortopédica são diferentes – e mais baratos – do que foi especificado pela licitação realizada pelo Estado, resultando em um sobre preço de mais de 56%, denunciou Arcângelo.
De acordo com ele, as próteses licitadas pelo Estado deveriam ser confeccionadas em fibra de carbono, revestidas com termoline (material mais confortável, leve e duradouro) e com joelhos pneumáticos (com maior flexibilidade e durabilidade), mas a que foi entregue a ele é feita de plástico e fibra comum, com joelho impulsor, menos durável.
E as diferenças não se limitam à tecnologia usada no equipamento. Enquanto o Estado pagou R$ 16.332,00 em cada prótese, segundo consta no edital de licitação, o equipamento entregue a Arcângelo custou aproximadamente R$ 6 mil, segundo o paciente disse ter sido informado pelo próprio fornecedor do produto.
Secretaria garante solução
A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que o paciente Arcângelo Rocha Batista receberá uma nova prótese. O paciente também passará a fazer acompanhamento no Centro de Reabilitação da Policlínica Antonio Aleixo, da rede estadual de saúde. As medidas foram adotadas ontem, após reunião entre a equipe da Susam, um representante do fabricante da prótese e o paciente.
Já a Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas), órgão ao qual Arcângelo recorreu após o acidente acidente , informou que a competência pela solicitação e entrega das próteses e da Susam e que não há irregularidade na contratação de empresa terceirizada.