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A Crítica
Manaus

Sob os pés, o passado invisibilizado de Manaus

Arqueologia revela que a capital amazonense foi habitada e moldada por povos ancestrais muito antes da chegada dos colonizadores.

Publicado em 24/10/2025 às 17h08
Sob os pés, o passado invisibilizado de Manaus
Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

Assim como a história do Brasil não começou em 1500, a história de Manaus não começou em 1669. A “Mãe dos Deuses” – significado indígena do nome da cidade – nasce do encontro de rios, saberes e civilizações que já existiam muito antes de qualquer colonizador se aproximar das terras dos manaós. Sob o asfalto e o concreto da metrópole moderna repousa um mundo ancestral, fincado na terra, guardado pelas águas e contado nas pedras.

Os primeiros habitantes deixaram sinais de sua presença em sítios arqueológicos espalhados pela região, como o Complexo das Lajes, no encontro dos rios Negro e Solimões. Ali, a floresta guarda inscrições e vestígios que revelam um modo de vida sofisticado, baseado no equilíbrio entre o humano e o natural. O arqueólogo Carlos Silva, pesquisador e voluntário da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), chama o sítio de “biblioteca a céu aberto”.

Esses registros, segundo o arqueólogo, demonstram que a região onde hoje se ergue Manaus foi densamente habitada. As marcas deixadas nas rochas indicam uma produção artesanal intensa, o que revela uma forma de organização social e de transmissão de conhecimento. “Se alguém produz uma ferramenta, também ensina. Essas marcas mostram que havia ensino, aprendizado e cultura. É um laboratório de tempo”, conta Carlos.

A Manaus anterior à Manaus de hoje

O arqueólogo destaca que as civilizações amazônicas antigas dominavam técnicas de manejo da terra e da água que garantiam abundância de alimentos e biodiversidade. O que hoje chamamos de bioeconomia era, para esses povos, parte do cotidiano. Ele cita o manejo de espécies como a castanheira, o cacau, o guaraná e a mandioca como exemplos de heranças milenares.

“A floresta que temos hoje foi, em grande parte, produzida por esse trabalho coletivo. A diversidade que vemos é herança direta dessas populações. A Amazônia foi construída por coletores e semeadores. Quando retiravam a raiz da mandioca, já faziam o replantio. Era um ciclo de reciprocidade com a natureza. O problema é que o sistema colonial que veio depois só aprendeu a extrair, nunca a devolver”, aponta Carlos Silva.


Complexo das Lajes é uma “biblioteca a céu aberto. Alberto César Araújo/Amazônia Real

Povos e o tempo invisível

Os povos que viveram às margens dos rios Negro e Solimões deixaram marcas profundas no solo e na cultura: cerâmicas, ferramentas de pedra e as chamadas terras pretas de índio, solos férteis criados por técnicas de manejo que até hoje sustentam plantações em áreas como a Praia do Tupé, a Praça Dom Pedro II e a região do Japiim. O Aleixo, o Encontro das Águas e antigas áreas do centro urbano, incluindo a Praça da Saudade e o Paço Municipal, guardam fragmentos de urnas funerárias e cerâmicas que revelam modos de vida milenares. Alguns desses sítios foram destruídos pela urbanização, mas muitos ainda resistem sob as praças, avenidas e quintais da cidade.

“É uma presença que não se vê, mas que está por toda parte. Essas populações foram apagadas das narrativas oficiais, mas o solo e a floresta continuam a falar por elas. A invisibilização indígena aconteceu em todo o Brasil, mas no Amazonas ela é ainda mais grave, por se tratar do estado com uma das maiores populações indígenas do país”, afirma o doutor em arqueologia, Eduardo Góes Neves.

O pesquisador, que dedicou anos de trabalho na capital, imagina o futuro de Manaus como uma cidade-jardim amazônica, sustentável e integrada à floresta. Na visão dele, a capital pode se tornar um centro de produção científica, cultural e tecnológica, referência mundial em conhecimento sobre biodiversidade e modos de vida sustentáveis.

“Manaus tem vocação cosmopolita. É uma cidade no coração da Amazônia, que pode ser exemplo de convivência entre ciência e natureza, entre modernidade e ancestralidade. O futuro de Manaus começa no reconhecimento da sua origem indígena. Só assim poderemos construir uma cidade verdadeiramente plural e consciente da sua própria história”, vislumbrou Eduardo.


Futuro de Manaus começa no reconhecimento de sua origem indígena. Foto: Carlos Augusto da Silva

Construção da cidade eurocêntrica

O historiador Fábio Augusto, mestre em História Social, explica que a própria construção da história da cidade foi moldada por uma visão eurocêntrica que glorificou os conquistadores e silenciou os povos originários.

“A História de Manaus, desde sua fundação, é contada a partir da visão dos conquistadores europeus. Os grupos dominantes construíram uma narrativa marcada pela glorificação dos ‘feitos’ dos missionários, soldados e desbravadores, imbuídos de um suposto heroísmo ao subjugar o meio e suas populações nativas. Essa visão, que ainda encontra adeptos, desconsidera as vivências e resistências de homens e mulheres indígenas e de africanos escravizados, tratados como entraves ao progresso”, afirma.

Fábio lembra que até meados da década de 1990 era comum encontrar em livros didáticos expressões como “índios arredios” ou “preguiçosos”, reflexo de uma mentalidade que reduziu a presença indígena a estereótipos. A chamada modernidade da Belle Époque, segundo o historiador, excluiu os povos que ajudaram a formar a cidade.

“O processo de urbanização entre o final do século XIX e início do XX não foi nada favorável à preservação da memória indígena. Cemitérios e espaços sagrados foram soterrados e transformados em praças com monumentos aos colonizadores. A mesma sociedade que construiu o Teatro Amazonas, relegou seringueiros a um regime de quase escravidão e invadiu terras indígenas para abrir novas áreas de exploração”, aponta o historiador.

Saiba mais

Os achados arqueológicos mostram que, muito antes das fortalezas e igrejas coloniais, já existia uma cidade verde, viva e organizada, erguida sobre as margens dos rios e alimentada pela floresta. Quando o colonizador chegou, a cidade já estava pronta, só mudou o modelo.

História sendo reescrita com outros textos

A professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e jornalista Ivânia Vieira enfatiza que a história de Manaus foi construída a partir de um silêncio imposto também ao apagamento das vozes femininas, negras e indígenas que moldaram a cidade. Segundo ela, a identidade manauara carrega as marcas da colonização e dos ciclos de exploração, mas também a força da resistência.

Enquanto a elite da Belle Époque buscava espelhar-se na Europa, “era preciso matar a outra Manaus”, a cidade popular, pluriétnica, feita de gente que sobreviveu à tentativa de apagamento. Para ela, esse projeto ainda ecoa nos bairros, na política e nas estruturas de poder.

Ivânia cita o papel fundamental das organizações civis, como o Coletivo Encontro das Águas, a Associação Makira-Eta, o Fórum de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas e outras que, segundo ela, “dão a Manaus a outra face – a da resistência e da vida”.

“Ao calar a presença das mulheres e do povo preto, é amordaçada a outra metade do corpo da cidade numa tentativa, sistemática, de eliminação. Não conseguiram. Os corpos das mulheres, do povo preto, dos indígenas falam, gritam e mobilizam a presença do que o modelo hegemônico de ‘desenvolvimento’ tentou e tenta silenciar. A história está sendo escrita e tem outros textos, outras páginas”, enfatiza a professora.