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A Crítica
Manaus

Trabalho árduo e inseguro na orla da Manaus Moderna

Na data em que se celebra o Dia do Trabalhador Portuário, quem está na ativa, no sol e na chuva, busca reconhecimento da profissão

Publicado em 28/01/2024 às 10h20
Trabalho árduo e inseguro  na orla da Manaus Moderna
Foto: Junio Matos

Neste domingo, 28 de janeiro, é celebrado o Dia do Trabalhador Portuário. Em Manaus, a classe enfrenta a falta de segurança e regularização profissional, além de uma estrutra precária no Porto da Manaus Moderna. Acidentes, assaltos e problemas de saúde fazem parte da realidade diária de trabalhadores com mais de 50 anos de idade. 

Quem viajou pelo menos uma vez de barco ou de lancha já se deparou com os carregadores de cargas e bagagens nas balsas do Porto da Manaus Moderna, no Centro da capital amazonense. Geralmente estão com malas, sacas ou caixas empilhadas sobre a cabeça, que muitas vezes ultrapassa o próprio peso.

Esses trabalhadores atuam de domingo a domingo no porto. Pelas escadarias, em condições precárias, e balsas, são conhecidos por apelidos: “Pará”, “Soldado”e “Chiquinho” são alguns exemplos. Além do peso das cargas, eles também precisam reunir forças para superar todas as dificuldades que fazem parte da rotina de trabalho.  

O rio Negro, em Manaus, já ultrapassou o nível de 20 metros e o período com poucas viagens fluviais ficou para trás. Mesmo assim, os carregadores ainda começam o dia com a incerteza de quanto vão conseguir faturar. 

“Tem dias que a gente faz R$ 40, tem dias que a gente não faz nem isso. Antigamente eu fazia R$ 150 em um bom dia de trabalho. Tá muito difícil” 

O lamento é do senhor Alcelino Batista, de 57 anos. Conhecido como “Soldado”, ele carrega pelo corpo as marcas de mais de duas décadas de trabalho braçal. 

As unhas dos pés estão encravadas, os dedos reúnem várias feridas. A coluna também já não é a mesma da época de juventude e isso é o que mais lhe preocupa. 

Se as dores aumentarem, ele teme ficar sem ter como trabalhar. Carregar mercadoria é de onde sai a única fonte de renda da casa, na qual mora com os quatro filhos adolescentes. 


Alcelino Batista, de 57 anos, sente no corpo as marcas de mais de 20 anos de trabalho braçal, enfrentando sol e chuva, e sabendo que não pode ficar sem trabalhar, pois daí depende o sustento da família. (Foto: Junio Matos)

 

“Já são 25 anos carregando peso nas costas, mas só agora que eu tô sentindo [as dores]. Tem vezes que meus filhos me veem de madrugada com dor. Eu digo que não vou trabalhar, mas como fica em casa? Se eu fico dois dias parado [sem trabalho] é quase R$ 100 a menos em casa”, disse o carregador. 

O Soldado começou a trabalhar como carregador há 25 anos e continua no ofício porque não consegue outro emprego sem qualificação profissional e perto de completar 60 anos. Assim como o Soldado, há muitos carregadores com idade avançada, porém também há os mais jovens. 

‘Emprego’ necessário para ajudar a mãe’

Adriel Souza tem 31 anos e é conhecido como “Pará”. Natural do Estado vizinho do Amazonas, ele trabalha como carregador há 5 anos. Foi o emprego que ele conseguiu encontrar para ajudar na compra dos remédios da mãe, que ainda vive em terras paraenses. 

“Ela está internada porque fica doente muito fácil, pela idade. Meu irmão é quem fica com ela. O problema é que lá no Pará os remédios são muito caros então eu tô aqui pra ajudar”, disse Adriel. 


Adriel Souza tem 31 anos e há cinco trabalha como carregador. É dessa labuta que ele consegue dinheiro para comprar remédios para sua mãe, que mora no Pará. (Foto: Junio Matos)

 

Insegurança 

A profissão dos carregadores é informal no Porto da Manaus Moderna. Não existe, hoje, uma associação que os representem. Eles se organizam no boca-boca e captam clientes respeitando acordos entre si, mas isso abre brecha para que criminosos atuem no mesmo ambiente. 

“Chegam por aqui uns meninos novinhos, uns 18 anos mais ou menos e se dizem carregadores. Mas eles pegam as malas pra roubar. Roubam de tudo, né? É celular, é mala. O cliente não tem como saber que é bandido porque a gente não tem um crachá, um colete”, disse Pará 

A falta de segurança não é relatada apenas por carregadores, mas também pelos donos de embarcações que aportam no local. Uma dessas, que não quis se identificar, disse para a equipe de A CRÍTICA que à noite o perigo é constante. 

“A gente fica aqui [no barco] sem saber o que fazer. Não pode dormir porque tem que ficar vigiando tudo. Já entraram no meu barco várias vezes e levaram até mesmo meu botijão de gás” disse a fonte. 


Sem uso de EPI e sem nenhum amparo trabalhista, os carregadores portuários ficam à mercê da sorte, pois a insegurança os rondam diariamente durante o ofício (Foto: Junio Matos)

 

Esquecidos pelo poder público

Os próprios carregadores tentam se organizar pra criar uma associação que represente a classe e possa melhorar as condições de trabalho, mas esse não é um objetivo que pode ser alcançado facilmente.  

Segundo Pará, sobra vontade, mas falta recursos pra fazer um credenciamento, para comprar coletes e também para criar uma reserva para uso em casos de acidentes. 

“A gente até tenta se organizar e juntar um dinheiro, mas já ganhamos pouco. Aí eu vou tirar do meu bolso como?“, informou o carregador.  

Ele afirmou que já procurou pelo poder legislativo várias vezes, que alguns vereadores já chegaram a visitar o porto e garantiram que dariam continuidade no processo para criar uma entidade e legalizar a profissão, mas nunca houve retorno. 

“Eles (vereadores) vêm aqui é em época de campanha, mas depois somem. A gente precisa de ajuda. Pelo menos pra começar, pra conseguir uns coletes e chamar só quem é de trabalhador de verdade” disse Pará. 

É neste cenário que a amizade entre eles fica mais forte. Um apoia o outro e juntos eles seguem em frente. 

“O Pará aqui é meu amigo. Eu conto tudo pra ele, e ele pra mim. Tem dias que é difícil demais de seguir, mas a gente tem com quem contar, né? É meu amigo!”, afirmou Soldado

“E a gente se ajuda. Se ele precisar, de um serviço eu posso indicar. Eu já sei que é de confiança. É assim que a gente se ajuda aqui”, respondeu Pará.

Manaus não tão moderna 

Outra dificuldade é a falta de estrutura do Porto da Manaus Moderna. O local recebeu o nome atual na década de 1980, durante o governo de Gilberto Mestrinho. Ele foi o responsável pelas obras que transformavam a orla da cidade em uma área de comércio portuário. Atualmente, os trabalhadores dividem espaço com lixões espalhados pela orla. 

É muito comum se deparar com cargas jogadas na areia. Os acidentes mais recorrentes envolvem o tombamento do carro-de-mão que é usado para transportar mercadorias. Eles viram porque são largos demais para passar pela rampa estreita que liga a praia até a rua. 

Se a carga é danificada, o carregador tem que tirar do bolso para não deixar o dono do material no prejuízo. O mais difícil é quando o acidente machuca esses trabalhadores. Dependendo de como está o nível do rio, eles precisam acessar as balsas onde os barcos atracam através de pranchas estreitas. 


Trabalho começa ainda na madrugada e se estende até altas horas da noite ou enquanto houver embarcações chegando e saindo do porto. (Foto: Junio Matos)

 

Tem motivos para celebrar?

Segundo a Marinha do Brasil, a celebração do Dia do Trabalhador Portuário foi criada como alusão à abertura dos portos brasileiros para as nações amigas, em 1808, para homenagear a classe que tanto contribui pra a economia e responsável por abastecer os mercados e feiras. 

No Porto da Manaus Moderna, esses trabalhadores não tem o que celebrar, apenas lembram da data como uma lembrança de que mais um ano se passou e as dificuldades permanecem.