Manaus dom, 8 nov
A Crítica
Manaus

Travessias precárias e sensação de abandono: população sofre com interrupções na BR-319

Moradores e motoristas relatam riscos e isolamento após destruição de aterros e atrasos em obras. Sem pontes definitivas e com travessias instáveis, população depende de solidariedade

Publicado em 07/06/2025 às 11h38
Travessias precárias e sensação de abandono: população sofre com interrupções na BR-319
Foto: Lucas Motta/A CRÍTICA

O caminhoneiro Rosalvo Tiago já perdeu a conta de quantas horas passou isolado no acostamento do quilômetro 23 da BR-319. Ele chegou durante a tarde da quarta-feira (04) e, depois de uma noite e a manhã do dia seguinte, ainda não sabia quando iria poder seguir viagem. Ao lado da “vizinhança” de outros caminhões na mesma situação, ele explicou que é a solidariedade que mantém todos unidos. A ajuda mútua, nesses momentos, é indispensável.

“Aqui é no companheirismo, né? Um ajuda o outro e vamo se virando como pode. Um companheiro faz o almoço, o outro o café da tarde, um a janta”, comentou Tiago.

O motivo de ele estar “enraizado” a poucos metros da travessia sobre o rio Curuçá é a força da natureza. Na madrugada da segunda-feira (01), o aterro de pedras que faz ligação com a balsa e possibilita o trajeto foi tomado pela intensidade da correnteza. De lá em diante, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) agiu para refazer o trecho. Ele até consegue, mas não dura muito tempo: a água refaz o estrago. Carros de passeio têm mais chances de atravessar, mas, em algum momento do dia, é comum que a passagem seja interrompida por causa da manutenção. Só depois dela os caminhões podem acessar a área.

Cerca de 2 quilômetros à frente, mais um problema — desta vez na travessia do rio Autaz Mirim. Além do aterro destruído, o DNIT teve que realocar a posição da balsa depois do rompimento de cabos. Eles reforçaram a embarcação com barcos “empurradores”; agora são três, e todos estão contra a correnteza, para agir imediatamente caso necessário. Mesmo assim, também é preciso que se espere a reconstrução do caminho de pedras.


Máquina tenta reconstruir acesso à margem do rio Curuçá, na BR-319. Trecho destruído pela força da água dificulta travessia de veículos e isola moradores da região; intervenção do DNIT é constante, mas pouco duradoura (Foto: Lucas Motta/A CRÍTICA)

Os passageiros da Kombi do Alessandro Santos esperam sentados, de braços cruzados. Não havia outra opção. Já o condutor do veículo estava sem paciência. Ele contou que, desde a queda das pontes, a população vive desassistida, sem qualquer auxílio. Cobrou atenção maior e disse que cansou de ver cenas perigosas nas travessias — veículos que, por pouco, não caíram na água.

“A sensação que a gente tá aqui é de abandono. São três anos de omissão, nada é feito. O que a gente queria nesse momento aqui é lanchas da Defesa Civil, banheiros químicos”, comentou Alessandro.


Pedestres e motociclistas arriscam travessia em trecho alagado da BR-319. Com aterros frequentemente cobertos pela água, população caminha por entre correntezas expostas para acessar balsas e seguir viagem no trecho do rio Curuçá (Foto: Lucas Motta/A CRÍTICA)

Riscos em dobro

A ausência das pontes não atrapalha apenas a vida dos motoristas e passageiros, mas também impacta de forma negativa o dia a dia dos moradores das comunidades ao redor dessas áreas. Um exemplo é o agricultor familiar Davino Lourenço. Ele é do distrito do Puru-Puru, em Careiro Castanho. Agora, ele tem que gastar o dobro do que gastava para trafegar na BR-319. Para quem teve a produção afetada pela cheia, qualquer ônus prejudica bastante as contas de casa.

“Antes eu gastava R$ 25 da minha localidade até o Careiro; hoje eu gasto R$ 50. Se eu sair de casa com o dinheiro contado, não chego. Alguém vai ter que me ajudar, quem vai? Se tem milhares de pessoas na mesma situação que eu…”, disse o agricultor.

Ele faz a travessia em catraia, onde o trajeto é percorrido em pequenas embarcações como voadeiras e canoas. Ele não depende das condições dos aterros ou das balsas, mas não deixa de correr riscos. Nossa equipe de A CRÍTICA flagrou quando o motor de uma dessas embarcações parou de funcionar no meio do rio Curuçá. A força da correnteza empurrou a voadeira contra a lateral da balsa. No desespero, os passageiros quase tombaram para dentro da água. Dificilmente alguém poderia sair vivo se fosse puxado para debaixo da grande estrutura de ferro.

O condutor de veículo escolar, Josimar Afonso, estava na voadeira. Ele disse que saiu de casa para comprar mantimentos, que nem nadar sabe. Ficou nervoso e emocionado por causa da experiência. No fim, com lágrimas nos olhos, cobrou as autoridades pela situação que passou.

“Chegou ali no meio, o motor parou. Quase a embarcação afunda. Tô um pouco nervoso porque não sei nadar, mas graças a Deus, um livramento. Foi muito rápido, correnteza muito forte. Que o poder público possa ver o sofrimento aqui dessas pessoas, é muita luta”, disse.

Em maio, o DNIT informou que a ponte sobre o Curuçá vai ser entregue até setembro. Trata-se de uma estrutura diferente da anterior, maior, com 150 metros de extensão e 13 metros de largura. Além dela, a ponte sobre o rio Autaz Mirim também está em reconstrução, com entrega prevista para novembro deste ano.