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A Crítica
Manaus

Violência doméstica contra as mulheres ainda é chaga a ser combatida

Mulheres estão cada dia mais contando abertamente as histórias dos anos que passaram sendo agredidas e torturadas - física e psicologicamente, além de sofrerem ameaças de morte por parte dos maridos e companheiros

Publicado em 04/12/2016 às 08h00 · Atualizado em 12/03/2022 às 19h01
Violência doméstica contra as mulheres ainda é chaga a ser combatida

Mulheres vítimas de violência doméstica estão cada dia mais contando abertamente as histórias dos anos que passaram sendo agredidas e torturadas – física e psicologicamente, além de sofrerem ameaças de morte por parte dos maridos e companheiros. Para elas, essa é uma forma de incentivar outras que ainda vivem o ciclo da violência doméstica.

Maria Francisca, 41, e Ana Costa, 41, viveram histórias semelhantes de violência doméstica e conseguiram se superar. Francisca ainda se emociona quando lembra. Ela disse que casou aos 18 anos e ficou 23 anos casada, sendo 17 deles com um homem que a maltratava em todos os sentidos. De acordo com ela, o início do casamento foi de amor e carinho, mas com o passar do tempo começaram aparecer às agressões, traições e tormento quando questionava as agressões e a proibição de estudar e trabalhar.

Os anos passaram e na esperança de que ele mudasse, ela adquiriu doenças físicas e emocionais. As agreções, que antes era só com ela se estenderam para os três filhos. “Eu era mordida, enforcada, ele chegou a puxar faca pra me cortar, mas os vizinhos não deixaram. Os meus sonhos de quando eu era jovem morreram e fiquei retraída. Passei a acreditar que eu não prestava mais para nada”, relatou.

De acordo com a delegada da Delegacia Especializada em Crime Contra a Mulher (DECCM), Deborah Mafra, é nessa condição que a maioria das mulheres vítimas de violência doméstica chega à delegacia. “A maioria chega arrasada, envelhecida, sem nenhuma alegria e acreditando que não servem para nada, mas quando conseguem romper o circulo da violência doméstica elas se tornam outras. Passam a se cuidar, a autoestima eleva, ficam felizes e a alegria delas se estende para toda família”, diz a delegada.

Em julho do ano passado, Francisca decidiu romper com o circulo da violência na vida dela. “Eu decidi acabar com o casamento ou com a minha vida porque eu estava vivendo no inferno, tinha tentado suicídio três vezes, e foi aí que as agressões ficaram ainda mais violentas e frequentes. Ele chegou a tentar me matar enforcada e foi quando fui aconselhada ir à delegacia da mulher denunciá-lo”.

De acordo com a coordenadora do Programa Ronda Maria da Penha, Adriana Sales, quando uma situação dessa chega à polícia a mulher é logo inserida no programa e passa a receber proteção, o que impede a aproximação do agressor, e por conta desse trabalho muitas mulheres que poderiam estar mortas hoje estão levando uma vida nova, se tornaram produtivas e se sentindo livres. “São muitas que voltam aqui para nos agradecer pela oportunidade de continuar vivendo”, diz Adriana, que é capitão da Polícia Militar.

Uma luz pra ela começou a brilhar para Francisca quando o marido foi retirado de casa mediante medidas protetivas. Ela teve apoio do Ronda Maria da Penha e passou a dormir a noite inteira . “Ele dizia que eu não prestava para nada. Não dormia de desgosto e tinha vontade de morrer”, conta. “Hoje sou alegre, brincamos dentro de casa, temos paz. Voltei a estudar, fiz um curso de recepcionista, pela primeira vez fiz as provas do Enem, me inscrevi no programa Bolsa Universidade e fui aprovada e eu vou cursar Psicologia. Falo isso para que sirva de exemplo para outras pessoas”, completa Francisca.

‘Quebrar o círculo da violência’

A delegada Deborah Mafra, que diariamente acompanha o drama das mulheres vítimas da violência doméstica, diz que em pleno século XXI a mulher ainda é considerada pelo marido ou companheiro como propriedade dele e objeto de uso, porém com uma diferença. “Antes ela apanhava e ficava calada e a sociedade a reprimia se ela falasse alguma coisa”. “Hoje a mulher ainda apanha e sofre as mesmas humilhações do passado, mas hoje consegue denunciar o seu agressor e conhece que há mecanismos de proteção que vão garantir o os direitos dela”, afirma a delegada.

O machismo é a principal motivação para as agressões domésticas. Conforme a delegada, quando os agressores são chamados a ir à delegacia eles chegam alterados, bravos e dizendo que não sabem o que estão fazendo ali já que não fizeram nada. “A primeira coisa que a gente esclarece é de que ele é um criminoso e não sabe. Bater, subjugar, ameaçar são crimes e eles fazem isso porque veem a mulher não como ser humano. E ela ainda apanha por não ter lavado a roupa do marido e não ter arrumado a casa do jeito que ele quer”, revelou a delegada.