A água em questão
Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1992, o Dia Mundial da Água – 22 de março – é uma brecha, ainda, para chamar atenção à sociedade nacional e global sobre o destino dos recursos hídricos e, com ele, o da maioria da população humana e não–humana.
A destruição em ritmo acelerado de espaços e fontes naturais coloca a escassez da água na ordem do dia. No Brasil, a Amazônia exerce função estratégica na política de uso da água e essa ação assume aspecto cada vez mais ameaçador porque está marcada pela privatização de recursos hídricos e pelos impactos provocados por projetos de grande e médio portes implantados e em implantação na região.
Quanto mais o mercado das águas avança maior é o número dos sem-água no mundo. Há um ano eram 2,2 bilhões de pessoas cujo acesso à água em condições de consumo humano era vetado e 4,2 bilhões não dispunham de adequado sistema de saneamento. No Brasil, 35 milhões de brasileiros (16% da população) se encontravam fora do alcance da água tratada e 100 milhões (47% do total dos brasileiros) viviam em precária ou nenhuma condição de saneamento básico, de acordo com indicadores da ONU.
O marco regulatório do saneamento básico, aprovado em 2020, posiciona o Brasil para a exploração das águas e projeta bilhões em recursos financeiros aos grupos que operam nesse setor. Deixa em compasso de espera a tomada de medidas que possam por fim aos vergonhosos níveis de exclusão e de precariedade de vida no País, aspectos que passam, necessariamente, pela garantia de água potável e de um bom sistema de saneamento a todos os brasileiros.
Em Manaus, há mais de uma década, setores da sociedade se mobilizam para impedir a construção de um terminal de cargas na área do Encontro das Águas. O Fórum das Águas, o SOS Encontro das Águas e uma série de coletivos realizam atividades públicas para defender a conservação e preservação desse patrimônio natural e cultural. O projeto do terminal de cargas é patrocinado por um grande grupo econômico-político com ramificações em vários subsetores cujo histórico de atuação é de degradação ambiental. O Encontro das Águas, na região de Manaus, é uma das mais espetaculares demonstrações dos feitos da natureza e significa muito além do interesse turístico internacional, um bem simbólico e espiritual sob ameaça.