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A Crítica
Opinião

A COP na Amazônia e o contrassenso dos resíduos sólidos

A Amazônia, com sua vasta biodiversidade e importância climática, ainda enfrenta graves desafios na gestão de resíduos

Publicado em 31/10/2025 às 21h27
A COP na Amazônia e o contrassenso dos resíduos sólidos
Foto: Divulgação

A realização de uma Conferência das Partes (COP) na região Amazônica é, à primeira vista, um gesto simbólico e poderoso. Escolher o coração verde do planeta como palco para as discussões globais sobre o clima representa o reconhecimento do papel essencial que a Amazônia desempenha na regulação ambiental mundial. Contudo, o simbolismo se enfraquece quando se observa que o tema “resíduos sólidos” continua sendo tratado de forma secundária, mesmo em um território onde a preservação deveria ser prioridade absoluta.

A Amazônia, com sua vasta biodiversidade e importância climática, ainda enfrenta graves desafios na gestão de resíduos. Muitas cidades amazônicas carecem de infraestrutura adequada para coleta, triagem e destinação final. O resultado é a contaminação de rios, solos e comunidades, com impactos diretos sobre a saúde humana e os ecossistemas. Esse cenário expõe um paradoxo: discutir o futuro do planeta em uma região que ainda convive com práticas de descarte incompatíveis com a sustentabilidade.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010, foi criada justamente para enfrentar esse tipo de problema. A legislação estabelece princípios como a não geração e redução de resíduos na fonte, a logística reversa, a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e a destinação final ambientalmente adequada. Entretanto, a aplicação efetiva da PNRS na Amazônia ainda é limitada, o que evidencia a distância entre o que está previsto na lei e o que ocorre na prática.

A falta de integração entre governos, empresas e sociedade civil tem sido um dos principais entraves à implementação plena da PNRS. Em muitos municípios amazônicos, não há planos de gestão de resíduos consolidados, tampouco sistemas eficientes de coleta seletiva. A ausência de políticas contínuas e fiscalizações efetivas perpetua o ciclo de degradação ambiental, comprometendo o equilíbrio ecológico e a qualidade de vida das populações locais.

Nesse contexto, a Metodologia Lixo Zero surge como uma ferramenta estratégica para transformar essa realidade. Baseada em princípios como não geração, reutilização, reciclagem, compostagem e economia circular, a proposta busca desviar de aterros e lixões mais de 90% dos resíduos. Sua aplicação prática na Amazônia poderia impulsionar a criação de cooperativas de catadores, gerar emprego verde, fortalecer cadeias locais de reciclagem e reduzir drasticamente o impacto ambiental dos centros urbanos amazônicos.

Adotar o conceito Lixo Zero em políticas públicas e eventos regionais não seria apenas uma ação ambientalmente correta, mas também um gesto de coerência. A Amazônia, como símbolo da sustentabilidade mundial, precisa ser exemplo em práticas de gestão ambiental. A implementação dessa metodologia em escala regional poderia servir de referência internacional e fortalecer o papel do Brasil nas discussões globais sobre o clima e a economia verde.

A coerência entre discurso e prática é o que dá legitimidade às ações ambientais. Falar em neutralidade climática e descarbonização sem resolver problemas básicos como o manejo dos resíduos sólidos é manter uma lacuna ética e técnica. A transformação sustentável começa pela base — e isso significa cuidar dos resíduos de forma inteligente, socialmente justa e ambientalmente correta.

Em síntese, a realização de uma COP na Amazônia deveria representar não apenas o debate sobre as mudanças climáticas, mas também o compromisso com a gestão ambiental exemplar. Integrar os princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos à Metodologia Lixo Zero é um passo fundamental para que a região seja vista não como vítima da degradação, mas como protagonista da sustentabilidade planetária. A Amazônia tem a chance de ensinar ao mundo que desenvolvimento e responsabilidade ambiental podem — e devem — caminhar juntos.