A Justiça precisa agir
A recorrência com que os guarani são vítimas de ataques não pode significar um sim da banalização da vida dos povos indígenas
Os ataques aos indígenas, como ocorreu nos dias 23, 24 e 25 de dezembro, contra os Avá Guarani, Tekoha Guasu Guavirá, no Paraná, mostram como parcela da sociedade brasileira e de instâncias de poder se mantêm dentro da estrutura de racismo e de ilegalidade. De acordo com relatos de indígenas e nota oficial do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), do Regional Sul, fazendeiros dispararam tiros, atearam fogo nas habitações e foram roubadas motocicletas e pertences das comunidades.
Há sinais fortes de que as invasões, agressões incluindo a versão mais perversa dela, a morte de indígenas, exigem ações estratégicas do governo federal de curto, médio e longo prazos. De um lado, fazer a lei funcionar a fim de assegurar os direitos dos povos indígenas sejam de fato garantido e responsabilizar os culpados. De outro, promover os direitos humanos dos povos originários e a educação antirracista.
Não tem efeito apenas afirmar o quanto é absurdo, na atualidade, presenciar os atos de racismo e a consumação de violência física contra essa população. Faz-se urgente e necessário atuar em sentido amplo a fim de assegurar que essas comunidades possam viver neste país como pessoas portadoras de dignidade e cujos direitos não são expressão da lei morta.
A Constituição Cidadã completa este ano 36 anos. Uma de suas inovações é o capítulo referente aos direitos dos povos indígenas, falta agora ir além do que está escrito e concretizar o que representa anos de luta e de correção de séculos de injustiça e dos massacres. O Brasil permanece ostentando dívida histórica para com os povos indígenas e é convocado a fazer reparação. Mas, essa convocação vem sendo confrontada com posicionamentos de truculência.
A recorrência com que os guarani são vítimas de ataques não pode significar um sim da banalização da vida dos povos indígenas. Os ataques ocorridos no Paraná demonstram o quanto há disposição de fazer comunidades indígenas desparecerem a ferro e fogo. Falta aparecer o posicionamento legal e justo para que os autores e os executores sejam responsabilizados, caso contrário, no dia seguinte, notícias de outros ataques estarão estampadas na mídia. Um outro aspecto é o fomento ao confronto, se a justiça for omissa, o que poderá gerar uma tragédia de proporções não imaginadas.