Manaus ter, 20 out
A Crítica
Opinião

A prancheta do construtor

Para Manaus, a em seus 356 anos. A cidade que tanto precisa de novos sonhadores, de novos construtores. Nunca precisou tanto.

Publicado em 19/10/2025 às 10h58
A prancheta do construtor
Foto: Reprodução

Manaus, quando Eduardo Ribeiro tornou-se governador, era ainda uma cidade acanhada, com suas ruas de terra batida que viravam lodaçal no inverno amazônico, e casas simples que mal se distinguiam da floresta ao redor. Ribeiro via ali, porém, mais do que um vilarejo. Para ele, aquele espaço exuberante era como uma prancheta em branco, esperando o toque de arte, justo e perfeito, de um mestre construtor.

E assim, sob seu malhete, iniciaram-se os trabalhos.

Os dias, então, passaram a ser marcados pelos ruídos das picaretas, dos martelos e das vozes dos operários, entremeados pelos sons mágicos da floresta. O traço de Ribeiro e de seus arquitetos, engenheiros, pedreiros e artesãos sofisticados, projetava ruas largas, retas, cortando a cidade como linhas de um desenho mágico. Onde antes havia becos estreitos, sujos e sombrios, nasciam avenidas que deixavam o ar circular e o povo caminhar alegremente.

As praças foram abertas não apenas como ornamentos para o deleite dos olhos, mas como verdadeiros lugares de encontro, de passos sincronizados e corretos, onde crianças podiam brincar e os adultos conversar à sombra das árvores abundantes e bem podadas. Os jardins públicos, com suas alamedas zelosamente cuidadas, traziam ao lugar um toque europeu, sem perder, no entanto, o espírito nativo. Tudo, ali, estava em conexão com o meio circundante.

Ergueram-se edifícios de pedra, de madeiras raras, de ferro também, símbolos de uma modernidade que surpreendia até os visitantes estrangeiros: uma Paris no coração da selva. Entre eles, despontava a grandiosidade de um projeto que parecia um desatino, o monumental Teatro Amazonas, que Ribeiro pegara nos alicerces e jurara erguer o mais rápido possível, para ser um facho imorredouro de luz e da cultura no seio da floresta, às margens do enigmático Rio Negro.

— Quero que aqui, no coração da Amazônia, ecoe a mesma música que se ouve em Paris ou Milão, que tenhamos acesso às óperas que contagiam o mundo, que todos saibam, enfim, que em Manaus, a mãe dos deuses, há civilização e que, também, nos doamos, como obreiros dedicados e fiéis, para construir um futuro melhor aos nossos filhos e guardar o que há de bom em nossa história. Alguns o chamavam de louco, de sonhador, até de usurpador. A maioria o amava do tamanho que ele efetivamente era, um gigante.

Manaus se transformava diante dos olhos de todos: das janelas dos sobrados, senhoras viam surgir bulevares iluminados por lampiões a gás; dos cais, os viajantes espantavam-se ao encontrar uma cidade em pleno esplendor de modernidade; e nas ruas, o povo começava a sentir que fazia parte de algo maior.

Era o mesmo Eduardo Ribeiro que, em São Luís, escrevera artigos incendiários no jornal O Pensador, ao lado de seus companheiros de ideal. Agora, em vez de páginas impressas, sua redação era a própria cidade por fazer. Cada avenida aberta, cada praça ajardinada, cada edifício que saía do papel, era um artigo escrito com suor, pedras brutas lapidadas e látex, na verdade, uma página nova no sagrado livro da lei dos sertões amazônicos. Sob seu governo, Manaus deixou de ser apenas um entreposto comercial e tornou-se uma capital que encarava e se abria para o mundo sem medos.

O Pensador havia se transformado em Construtor, mas continuava sendo o mesmo homem simples e ativo, movido por ideias, convicção e coragem, alguém que conjugava a sabedoria dos mestres, a determinação dos fortes e a beleza dos grandes artistas. Eduardo, depois de um dia cansativo, preparava-se para dormir, sem deixar de vislumbrar, mais uma vez, com um sorriso de satisfação, o avanço espetacular das obras…

PS. Para Manaus, a em seus 356 anos. A cidade que tanto precisa de novos sonhadores, de novos construtores. Nunca precisou tanto.