Manaus sáb, 24 out
A Crítica
Opinião

A revolta da solidariedade

Por Lourenço Braga / Ali não havia ricos x pobres, velhos x jovens, brancos x negros, eruditos x iletrados, cristãos x ateus. Havia, em verdade, um admirável conjunto de corações e de almas unidos contra a violência e a discriminação

Publicado em 12/06/2020 às 19h38 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h54
A revolta da solidariedade

O mundo assistiu, durante toda a semana que passou e por dias desta, ao que talvez tenha sido a manifestação popular de maior significação deste início de milênio: homens e mulheres idosos, adultos, jovens e até crianças tomaram ruas dos Estados Unidos da América da Norte, dia após dia, para protestar contra assassinato praticado por um agente do Estado, à luz do dia e em plena via pública.

Um homem, acusado de haver furtado 20 dólares – evidentemente que, se verdadeiro, praticando ação tipificada  pela Lei Penal –  foi imediatamente dominado por três policiais e um deles, usando de táticas que todos de sua turma aprendem para defender-se, e até para imobilizar presos, jogou-o ao solo e lhe impôs, por minutos que devem ter durado uma eternidade, o peso de seu corpo de prováveis 100 quilos, pressionando-o contra o chão com o joelho de uma das pernas sobre seu pescoço,  imóvel e indefeso, incapaz de praticar reação qualquer.

O passar do tempo, longo para George Floyd, foi minando as forças de quem se transformara rapidamente em vítima da brutalidade humana e de nada valeram seus apelos, que se repetiram até que chegasse à agonia, de que sequer conseguia respirar. O símbolo mais primário do direito à vida sendo dolosamente negado por alguém pago para garanti-la..  Sem que se apiedasse, o policial-assassino só dispensou sua vítima da barbárie que praticava quando uma ambulância chegou para conduzi-la a atendimento médico em pronto socorro, que de nada valeu.

Infelizmente, não era aquele um ato singular de brutalidade. A sociedade dos tempos atuais parece ter-se acostumado a tanto, ou até mais, com registros que muitas vezes se restringem ao âmbito dos familiares e dos amigos. Mas ali havia algo a ressaltar: não se tratava “apenas” de um crime praticado por um agente da lei, mas consistia, mesmo, em manifestação inequívoca do racismo que permeia a cultura das gentes e dos povos em todos os tempos e em todos os lugares. O que aquele homem que se imagina branco, mesmo que só na cor da pele, demonstrava ter sob seu joelho assassino não era para ele  um semelhante, mas um negro. Para muitos, pode parecer estranha essa afirmação, mas aquele cretino não impunha sua força a um igual, mas a alguém que, de tez diferente, tivera o azar de ouvir dele acusação de se deixar flagrar na prática de um delito.   Fosse um branco, talvez algemas lhe fossem fechadas nos punhos e se tivesse dado o conhecido transporte no carro celular da polícia. Um registro em boletim e o comparecimento à presença de um Juiz encerraria o triste episódio, infelizmente comum. Com um negro, não. Era preciso a humilhação extrema, que costuma acontecer, lá como aqui, e a indiferença aos apelos da angústia, da dor e da sufocação talvez tenha gerado no íntimo do agressor prazer semelhante ao que experimentavam os algozes dos escravos, no Brasil de outrora, os que os compravam ou vendiam, exibindo-os como animais enjaulados ou objetos de feira.

Passeatas se sucederam, dia após dia, em diferentes cidades, mesmo nas mais importantes como Nova Iorque e Washington e muitos caminharam, aos milhares, silentes ou cantando, tocando, falando, todas formas eloquentes de gritar revolta  contra os gestos e as tradições que sufocam, que marginalizam, que oprimem com fundamento em odiosa discriminação racial. Abstraindo a ação de alguns vândalos que se juntaram à multidão para praticar depredações e saques – quase sempre inevitáveis em movimentos dessa natureza – o que se viu foram gestos de paz, com homens e mulheres em pé ou de joelhos na rua para simbolizar o objeto da repulsa.

E, talvez o mais importante: não eram só negros os que percorriam as ruas, descumpriam a ordem de recolher no horário pré-estabelecido, cantavam ou bradavam palavras de ordem. Ao contrário, uma maioria de não-negros fez com o mesmo grito, com igual fervor, manifestação de solidariedade jamais vista. Foi como se o silêncio da dor dos muitos dias de isolamento obrigatório para fugir da pandemia que dominou o mundo explodisse em vozes incontroláveis de repulsa e de desejo de construção de tempo novo. Talvez nos dias recentes muitos tenham aprendido o real valor da vida humana, assistindo, lá como em muitos lugares do planeta, a registros de maior letalidade entre as populações historicamente discriminadas, negros de todas as cores, de todos os idiomas, de todos os guetos, de todas as favelas.

Ali não havia ricos x pobres, velhos x jovens, brancos x negros, eruditos x iletrados, cristãos x ateus. Não! Havia, em verdade, um enorme e admirável conjunto de corações e de almas unidos pela solidariedade, contra a violência e a discriminação de qualquer natureza que há séculos eiva a espécie humana, talvez a pandemia mais daninha, de alta letalidade física e moral, com força histórica de jogar no chão a dignidade, de destruir a autoestima e de criar mundos diferentes em castas propositadamente isoladas, desrespeitadas, muitas vezes humilhadas.

Não eram tão-só passeatas para exigir justiça na punição de quem, valendo-se do poder do Estado que representava na rua, com obrigação de garantir a segurança da população e do patrimônio, praticou alta covardia contra quem não se podia defender, tirando-lhe criminosamente a vida. Ao exigir que a força da Justiça se faça também contra o branco assassino, o que pediam todos era julgamento de rigor igual ao que se daria em situação inversa, se negro fosse o acusado. E exigir justiça assim foi, como de fato é, proclamar a necessidade humana de respeito à igualdade.