A Venezuela em disputa
A discussão e tomada de posição em diferentes lugares do mundo sobre o destino imediato da Venezuela expõem interesses para além da bandeira humanitária e mais no enquadramento político-econômico a um modelo de desenvolvimento. O governo brasileiro que mesmo antes de ser instituída a atual gestão já se pronunciava de forma pouca estadista em relação ao governo venezuelano, deixou de agir dentro de uma postura diplomática e passou a ser parte ativa de pacto pela retirada do presidente Nicolas Maduro.
Nesse ato, soberania passou a ser expressão sem significado e o que prevalece são as intenções de grupos econômicos que se pronunciam por meio de governos para decidir sobre o destino de uma nação. O que está sendo feito pelos governos norte-americano, de países europeus, da América Latina para supostamente devolver a democracia à sociedade venezuelana é um desastre. Muitos países, em passado recente, viveram esse tipo de intervenção ditado pelos EUA, sofreram com retrocessos e dependência extremada do capital norte-americano. O Brasil é um deles. A postura de Maduro em nada contribui para a sinalização da retomada de uma gestão governamental que possa, progressivamente, apresentar saída à crise produzida na Venezuela.
É preciso reconhecer que o governo Maduro fez estragos profundos agora apresentados como explosões a partir da precariedade da vida na Venezuela, com alto índice de desemprego, êxodo de venezuelanos, doenças, falta de moradia e fome. O cenário é aproveitado por governos conservadores que em sintonia com empresários se apresentavam para salvar a Venezuela da tragédia. Quando se olha outros países em crise profundas, semelhantes ou até mais grave que a venezuelana, se não constata o mesmo interesse desses líderes governamentais em atuar para ajudar na superação.
A substituição do governo da forma como pretendem fazer esses líderes poderá lançar a Venezuela em um abismo sangrento de maior duração. É preciso lembrar que a Venezuela é um dos países produtores de petróleo e que há muito vem sendo pressionada para ser encaixada ao controle norte-americano nessa área. Falta, nesse quadro de exposição da crise venezuelana, a apresentação dos outros dados que fomentam a batalha pela queda de Maduro. E este, cada vez mais pressionado, também não consegue se posicionar ao mundo trazendo à tona a outra realidade que a disputa de poder naquele país sustenta.