Ação lenta e burocrática é uma ameaça
A Zona Leste, segunda maior área de concentração populacional de Manaus, com aproximadamente 550 mil moradores (dados de 2019), aparece com frequência no noticiário como uma das áreas que não está seguindo o distanciamento social nesse momento de pandemia da COVID-19. Nos últimos dias, o movimento de pessoas e de veículos cresceu mais ainda.
Embora não seja somente a população e setores do comércio da Zona Leste que ignorem as recomendações médicas de quarentena, nela a movimentação social poderá apresentar, nos próximos dias, mais um obstáculo no enfrentamento do novo vírus na capital. Parte da população da Zona Leste vivem em condições de completa precarização habitacional, com números expressivos de aglomerações de pessoas numa única habitação e, neste caso, o distanciamento social é impossível. Somam-se a esse dado a dificuldade de acesso à alimentação regular, a recursos médicos e, no conjunto, a um bom índice de saúde.
As necessidades profundas dessa parcela da população são, em parte, a razão para ir à rua, retomar micro atividades informais e de serviços prestados que podem representar a entrada de algum recurso financeiro. É nesse momento que as gestões governamentais deveriam agir de forma mais ágil para ter em mãos informações socioeconômicas por região (o mapeamento existe, talvez não esteja atualizado, mas produz uma fotografia do perfil de moradores por zona) e identificar aquelas onde a vulnerabilidade social é mais crítica. Acontece em Manaus algo parecido com o jogo que é feito em nível nacional pelo governo federal que de um lado incentiva à volta ao trabalho e, de outro, retarda a operacionalização das ações que poderiam assegurar recursos financeiros nas mãos dos segmentos mais frágeis nessa situação.
Em todo o mundo, o isolamento e o distanciamento social apresentam a melhor resposta diante da contaminação pelo novo coronavirus. Estimular a volta às ruas, ao comércio, a formação de ambientes de aglomerações é uma ameaça direta à vida dos brasileiros e, nesse caso, dos amazonenses e dos que vivem em Manaus. Neste momento, a rede hospitalar local apresenta dificuldades enormes para atender a demanda e, se esta aumentar o quadro será desesperador. Os que defendem o retorno à normalidade em um quadro de completa anormalidade comportam-se de forma irresponsável, deveriam ser corresponsabilizados pelo transtorno que provocam.
*Foto: Jair Araújo