Achatamento salarial
O valor do salário mínimo será mesmo de R$ 1.212 até o final de 2022
Agora é oficial: o valor do salário mínimo será mesmo de R$ 1.212 até o final de 2022, uma vez que o Senado aprovou, ontem, a medida provisória que fixou o valor e estabeleceu um dos poucos consensos no País: o valor é baixo. O reajuste aprovado corresponde apenas à correção inflacionária do ano passado, não representando ganho real para os trabalhadores. A perda no poder de compra é gritante.
A relatora da MP, senadora Soraya Thronicke (União-MS) foi feliz ao afirmar que a economia é o maior problema do País atualmente, e que a polarização político-ideológica funciona apenas como uma “cortina de fumaça” para ocultar o que todos os brasileiros sentem no bolso todos os dias. Cresce a inflação, crescem os juros, cresce o desemprego, mas não cresce o salário, em um ciclo de empobrecimento poucas vezes visto na história recente do País.
Alguns parlamentares até tentam argumentar que um aumento maior não é possível em face das regras da responsabilidade fiscal, mas é muito difícil tratar do assunto quando o País convive com um “orçamento secreto” que distribui bilhões de reais a projetos apadrinhados por parlamentares quando poderiam ser utilizados na fixação de um salário mínimo menos vergonhoso.
Com inflação de dois dígitos corroendo o valor do dinheiro, o brasileiro vê seu poder de compra esvair-se mês após mês, o que já compromete até mesmo a segurança alimentar de milhões de famílias. Basta lembrar que o valor da cesta básica já passa de R$ 760 em diversas capitais, praticamente 60% do salário mínimo atual. A remuneração mínima é uma conquista ainda relativamente recente da sociedade brasileira, uma vitória que deve ser fortalecida ano após ano. Um reajuste sem ganho real não deixa de ser um retrocesso perigoso. A realidade salarial do Brasil deve ser debatida.
O País precisa urgentemente de uma política séria de valorização do salário, com o governo colocando em primeiro plano a renda dos trabalhadores a partir de sua própria atividade laboral. Os tempos não são fáceis, o cenário externo é nebuloso, o mundo caminha para pouco crescimento na economia. Mas isso não exime o poder público da responsabilidade de atuar da forma que for possível para permitir que o trabalhador consiga obter o bastante para viver com pelo menos alguma dignidade.