Almir Diniz – um necrológio
Por Newton Sabbá Guimarães
“Se a morte tudo desfaz, e não esquece ninguém, por que não viver em paz, fazendo somente o bem?”
Horácio Bahiense in Minhas Inspirações
Do encantamento de um companheiro
Um aviso sucinto, mas comovido, de Robério Braga, por sinal de maneira extremamente guimarãesrosiana, dava-me conhecimento do “encantamento espiritual do jornalista Almir Diniz, um dos mais prestigiados titulares do silogeu, poeta e contista de renome”. O tranquilo Almir, sujeito incapaz de desavenças, nem de animosidades, desencantava – ou entrava em encantamento, para aproveitar-me da feliz expressão do meu colega – desta vida, como sempre viveu: à meia luz! Sabia-o doente, quase não andava mais e, segundo me disseram, estava de cadeira de rodas, suprema humilhação para quem, como ele, fora grande caminheiro, que gostava, também, de pescarias pelos altos rios e era capaz de passar dias em um barquinho pelas barrancas, lagos e paranás dos Autazes, região que conhecia a palmo, pois ali nascera e se criara. Lembro do nosso reencontro depois de anos de ausência da terra natal: fomos almoçar juntos, Almir, meu filho David e eu. Era um restaurante ali nas imediações do teatro Amazonas. Conversámos o tempo todo, ou melhor, conserto a expressão: Almir falou o tempo todo. Gostava de conversar, por vezes, sem pontos nem vírgulas. Nada de política, nada de livros, nem sequer de belas mulheres. Só de pescarias, como lembro um outro acadêmico, Oyama César Ituassú da Silva, também segundo se dizia, grande pescador. Almir era louco pela pesca e falava acerca das suas “aventuras piscosas”, como dizia a brincar, com ênfase. Meu filho por vezes interrompia-o a perguntar sobre jacarés e lá vinha o meu colega com mais estórias, algumas delas possivelmente as celebradas “estórias de pescador”, que tanta má fama têm e que dão origem a muitas piadas… Ficámos longo tempo ali, no restaurante, sem ar condicionado, barulhento, com mau vinho, mas comida deliciosa. De peixe da região. Acompanhou-nos depois do almoço até bom pedaço na praça de São Sebastião, das mais belas da cidade e despedimo-nos. Dias depois eu voltava para o Sul e só o veria dois anos depois, em outra visita à terra natal. Almir estava mais quieto, andava devagar, parecia mais triste, mas, ainda assim, quando fomos à Academia a buscar a nossa revista, teve momentos esfuziantes, bem seus, e, em um gesto de criança de cabelos brancos: perguntou se o David, que me acompanhava, tomava “uma dosezinha” (e fazia gesto com os dedos polegar e indicador a indicar uma dose de bebida!). Mas ali? Na austera Casa de Adriano Jorge? Sim, ali mesmo. Dito e feito: entrou, lépido, ao depósito, onde se encontravam os livros dos acadêmicos e montes de revistas e veio, todo ancho, com uma garrafa de uísque que havia adredemente escondido para servir aos amigos. “É dos bons”, disse, contente, a sorrir. Era de novo uma criança de mais de oitenta anos… Era um simples White Label, que ele, ingenuamente e sem nenhuma sofisticação, achava ser “dos bons”. Almir era assim: o menos artificial dos homens que haviam chegado à nossa velha instituição e com um eterno jeito de criança de que jamais se desfez. Ou de um velho que se recusava a envelhecer e permanecia criança. Pouco mudou de temperamento desde quando o conheci, na Universidade, em a nossa velha e querida Faculdade de Direito por onde passaram as mais ilustres personalidades do Estado. Elétrico, um bigodinho mal delineado, rosto chupado, magro, mas extremamente musculoso (fruto das suas pescarias, dizia, a sorrir!), alegre, sem maldade. Dele guardo uma lembrança carinhosa: falava de minha mulher como se fosse ainda a sua aluna do Colégio Estadual do Amazonas (onde ensinara por algum tempo), ou uma filha muito querida. Um dia contou-me: “Sabes, ela parecia uma criança, muito loirinha, uma sueca perdida no Amazonas, com os olhinhos muito azuis, diferente da nossa gente cabocla morena!” E todas as vezes que a encontrava, era uma festa: “Como vai a minha aluna?” Arlete, muito tímida, encabulava, e nós ríamos. Era um afetivo e lembrava dos amigos para os quais sempre tinha uma palavra amiga, enviando-lhes cada livro publicado. Acredito que possuo quase todos os que publicou, na sua maioria de poesia e outros de contos, e uns poucos de crônicas e reminiscências da sua vida de jornalista. Escreveu muito, mas só nos últimos anos é que se lançou às publicações. Um dos últimos que dele recebi, coincidiu com a candidatura frustre de meu filho mais velho, Isaac, a uma das poltronas em a nossa Academia e Almir, que esteve entre os que apoiavam o candidato, faz referência à sua torcida na sua dedicatória de A Virgem de Taipa e Outros Contos, dos mais belos livros de contos das nossas letras: “Newton: Com espírito neste livro e torcendo pelo Isaac, abraços do autor. Em 18.12.2004” Depois do insucesso, escreveu-me carta muito dolorosa a respeito, lembrando o curriculum riquíssimo do candidato derrotado e finalizava: “não compreendo”. Mas nesta vida, nem tudo se compreende. Nem adianta pensar por que nem tudo se compreende. É melhor assim. “Lo que no se conoce no nos hace sufrir”, dizem os espanhóis, campeões em provérbios sábios. Assim era Almir Diniz: um afetivo e um amigo de seus amigos. E essa sensibilidade passou-a para alguns de seus melhores escritos, como um conto fantástico que poderia nivelar-se aos melhores do gênero, e com algo de Poe ou Hoffmann, no qual o narrador de terceira pessoa se refere a um escultor que consegue realizar a sua obra-prima em madeira e de tão bela que a faz, por ela se apaixona, como se fosse bela mulher de carne e osso. E vive para ela, como se fosse sua mulher. É um conto antológico que merecia ser difundido e traduzido. Disse-lhe o quanto esse conto me impressionara e seduzira, e, em outro encontro, a nota comovedora, a corroborar a sua afetividade: Almir havia trazido o livro, e abrindo-o na página do conto indigitado, leu-mo de ponta a ponta, com a voz embargada. Fechou o livro: estava comovido. De minha parte nada fiz que qualquer outro crítico honesto e imparcial não fizesse igual: elogiar sem rebuços aquela pequena obra-prima. Sempre lamentei que não esmerilhasse mais as suas páginas, que não repensasse mais os temas, e lhes não desse maior polimento. Elas trazem quase sempre a danosa cicatriz da improvisação e da pressa, vício dos anos de jornalismo. A sua despreocupação com a própria obra era uma de suas características, a completa falta de vaidade e o desconhecimento do próprio valor como escritor – como contista e poeta. E é de lamentar, pois tinha ideias muito boas que geraram temas e obras magníficas. Como muito bem acentuou Robério, Almir Diniz foi daqueles que viveu sem prejudicar ou importunar os outros, viveu com humildade e simplicidade, escondendo o ouro, como vulgarmente se diz. Isto é raro, pelo menos em o nosso meio petulante, em que todos se consideram novos Balzacs, Mérimées, Steinbecks, Hemingways, Rilkes, Pounds, Eliots, Hermann Hesses e outros. Almir quis ser apenas o Almir do Careiro, o pescador bem-sucedido nas longas pescarias, o escritor das horas vagas e o amigo dos seus amigos. Não digo que não será esquecido. O esquecimento é uma forma dolorosa de libertação. Afinal, tudo se esquece e o esquecimento, cedo ou tarde cai, sem piedade, sobre nós. Mas ainda por muito tempo ele será lembrado pela sua simplicidade, pela sua bondade genuinamente cabocla e por inteiro desataviada. E para acentuar esta sua maneira de ser, lembro outro caso, uma anedota sem desfecho dramático, mas que mostrava, de sobejo, o homem simples que era Almir Diniz. Estávamos reunidos, ele, Aníria, sua mulher, minha mulher e eu. Era uma solenidade na Academia e por força do cerimonial, envergávamos smoking com o cordão acadêmico. Em dado momento, virando-se para Arlete, disse: “Sabes, não me sinto bem com esta roupa e a gravata borboleta. Parece que não sou eu”. Todos rimos das suas palavras. Elas, contudo, eram a sua própria maneira de ser. O seu retrato de simplicidade e humildade.
Almir na intimidade
Tinha 92 anos e acredito que era o mais velho dos acadêmicos. Mais um de meus velhos amigos passava desta vida para uma outra dimensão. Antes fora o Armando de Menezes, depois de dias e dias de sofrimento, Armando, o apaixonado pela memorialística de que se tornara um pouco mestre, e o irmão devotado que não queria deixar apagar-se a memória de seu irmão mais ilustre, Aderson Andrade de Menezes, o jurista reconhecido além-fronteiras. E assim a nossa Academia vai-se desfalcando de seus bons membros e eu, privando-me dos meus amigos, dos que me eram caros e com os quais convivera sem essas ridículas ciumeiras de intelectuais, e sem problemas, vou-me privando dos velhos companheiros de longos anos. Eis o lado ruim da velhice: a solidão que nos cerca com a morte dos que nos foram caros e daqueles que, de uma maneira ou outra, seguiram de perto a nossa trajetória. Almir ingressou na Academia já bem entrado nos anos, acho que passava dos setenta e o seu discurso foi um primor de serenidade e gratidão para com os amigos que o apoiaram na eleição, e de humildade, também. Almir sabia ser grato e se, como ensina o Talmud, a gratidão é uma das maiores virtudes do homem, ele era um virtuoso. Mas se o discurso saiu tão bom e agradável, ele não fez esforços para isso: disse apenas o que pensava dizer, de si, da instituição que o acolhia de braços abertos, dos amigos que o apoiaram, do momento de esplendor por que passava. Sem arrogância, sem vaidade, mas simplesmente como quando jovem repórter, dos mais ativos e independentes, escrevia as suas reportagens sobre fatos políticos e coisas do momento. Não me detenho na sua obra, sejam os contos, sejam os poemas regionalistas, nem no seu belo poema sobre o jardim de sua mãe que o poeta revisita anos depois, já ela morta fazia anos, poema que pode ser considerado dos mais belos jamais escritos no Amazonas, distante reminiscência de “Visita à Casa Paterna”, de Guimarães Júnior. Isto ficaria para uma outra ocasião. Relembro, neste momento, o amigo de longos e longos anos, de mais de sessenta anos; relembro o companheiro de Academia; o professor liceal de minha querida mulher que está nos céus à minha espera – se eu tiver algum mérito para lá entrar e revê-la; relembro a figura bonachona e simples, quase simplória, que desconhecia o próprio mérito pela humildade do homem pobre, vindo das barrancas do Solimões e que, pelos esforços, pelo estudo, pela persistência, venceu como jornalista, advogado, como escritor e, por fim, como acadêmico. E, como é hora de re-lembrar, conto mais uma do seu espírito brincalhão: ele havia sido eleito para Academia sem oposição. Encontramo-nos na avenida Eduardo Ribeiro, nas imediações do antigo Tribunal de Justiça. Dei-lhe os parabéns e lisonjeei-o: “Sabes, os franceses consideram ser académicien uma das maiores honrarias que um intelectual possa merecer, sabias?” E a sua resposta, entre gozadora e espantada, logo veio, risonha: “Puxa, amigo, eu sou isso, agora?” Assim era Almir Diniz!
A despedida
Há um poema de Edna St. Vincent Millay, nos seus Collected Lyrics, que gosto de repetir. É o Passer mortuus est. Lá há um verso que se pode repetir, infinitamente:
Death devours all lovely things.
A morte tudo devora, as boas pessoas, os maus, as belas mulheres, as pessoas maldosas, os vencedores, os perdedores, os leais e os infiéis, os verdadeiros e os falsos, amigos e os inimigos… Todos, todos são devorados, sem piedade. A morte, só a morte é vencedora!
A quadrinha de Horácio Bahiense com que epigrafo este necrológio, assenta-se como luva para o companheiro morto. E com a sua releitura, ponho fecho a esta crônica!
Florianópolis, 03/09 de junho de 2021.