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A Crítica
Opinião

Amazônia e violência contra a mulher expõem desafios urgentes

Estudos alertam para o risco de colapso da floresta e mostram avanço das denúncias de violência doméstica no Brasil

Publicado em 05/06/2026 às 09h26
Amazônia e violência contra a mulher expõem desafios urgentes
Foto: Mauro Pimentel / AFP

A Amazônia pode estar perto de uma mudança irreversível do que se imaginava. Estudo da revista Nature concluiu que sem desmatamento, a floresta suportaria um aquecimento global entre 3,7° e 4º C antes de perder estabilidade em larga escala. Com a destruição da vegetação, o risco crítico surge muito antes: entre 1,5° e 1.9° C – faixa próxima da atual no planeta. Pesquisadores da Alemanha mostram que a combinação entre aquecimento global e desmatamento altera profundamente a capacidade da Amazônia de manter seu próprio equilíbrio climático.

Em vez de enfrentar apenas localmente as secas e calor, a floresta passa a sofrer efeitos em cadeia capazes de espalhar degradação por centenas ou milhares de quilômetros. O ponto de não retorno marca o momento em que a floresta perde a capacidade de se regenerar sozinha e entrar em degradação contínua. Mesmo que o desmatamento diminua depois, parte do sistema já teria perdido as condições para sustentar o clima úmido típico da floresta tropical. A floresta passaria a entrar num comportamento auto-organizado de degradação. A Amazonia depende da própria vegetação para produzir chuva.

As águas retiram água do solo e liberam vapor na atmosfera por evapotranspiração, formando nuvens que retornam em forma de chuva. A floresta funciona como uma “bomba biótica” puxando umidade do Oceano Atlântico para o interior do continente e distribuindo vapor d’água pela América do Sul por meio dos chamados rios voadores.

O diferencial do estudo foi analisar conjuntamente com os efeitos do aquecimento global e do desmatamento. O maior risco não está apenas na perda direta de árvores, mas na forma como a degradação pode se espalhar. Quando uma região perde a capacidade de reciclar umidade, a área das direções do vento passa a receber menos chuvas, provocando efeitos na mata. Apesar do alerta, os autores afirmam que o colapso não é inevitável.

Limitar o aquecimento global, interromper o desmatamento e investir em restauração florestal ainda podem evitar que a Amazônia ultrapasse o limite crítico.

DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Em dez anos a Justiça brasileira recebeu 6.473.967 processos sobre violência doméstica ou familiar contra a mulher, segundo pesquisa da Predictus, especializada em dados judiciais que utilizou uma plataforma de inteligência jurídica analisar ações registradas em 68 tribunais do país, entre tribunais de justiça, estaduais, STJ, STF, Tribunais Regionais Federais, Tribunais de Justiça Militar e Justiça Federal, no período de janeiro de 2016 a fevereiro de 2026. O levantamento é um retrato profundo da violência doméstica na Justiça brasileira.

Em média, o sistema recebe um novo processo a cada 49,36 segundos. Entre 2.026 e 2.025 o número anual de processos saltou de 475 mil para 780 mil, aumento de 64%, revelando uma realidade mais complexa do que uma simples explosão da violência. Os dados refletem a persistência das agressões, o fortalecimento da capacidade de registrar os casos e maior disposição das vítimas para denunciar.

As campanhas de conscientização e divulgação teve papel importante ao permitir que mais mulheres reconhecessem a gravidade das agressões e buscassem ajuda. O crescente do número de pessoas indica que o silêncio está sendo rompido e o Estado passou a intervir em situações tratadas como assuntos privados já que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O desafio é garantir que o aumento das ações judiciais seja acompanhado por respostas rápidas da Justiça e pela preservação da vida das vítimas. O recorde de 2025 – com 780.158 processos, o maior número de toda a série histórica – também pode ser interpretado como um “efeito rebote” diante das transformações sociais. As leis tornaram-se mais rígidas e as mulheres ocuparam mais espaços de poder e autonomia.