Manaus sáb, 24 out
A Crítica
Opinião

Círio de Nazaré

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Publicado em 30/10/2020 às 21h42 · Atualizado em 24/03/2022 às 23h00
Círio de Nazaré
Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

Desde há muito, a cidade de Belém, capital do Estado do Pará, realiza, no segundo domingo de outubro, uma das maiores demonstrações de fé cristã: o povo católico se reúne, às centenas de milhares, para festejar a Virgem de Nazaré.

Era a padroeira de meu pai e foi com uma imagem pequena da Santa em uma das mãos que ele enfrentou, em fria madrugada de 1948, um incêndio em meio à travessia da baía de Marajó, que destruiu o vapor Manauense, onde ele era Comissário,  e vitimou mais de 20 pessoas, entre passageiros e tripulantes da embarcação. O ícone de madeira tosca permaneceu em seu poder por todo o tempo do desastre e foi companheiro inseparável em grande parte de sua vida.

Dentre muitas versões sobre a origem da devoção  do povo paraense a Nossa Senhora, a mais aceita é a  que teria sido encontrada em um manuscrito do bispo Dom João Evangelista, narrando que no final do mês de outubro do ano de  1700 um homem simples, chamado Plácido José teria levado para casa uma imagem que encontrara em lugar próximo de um igarapé, à beira de um córrego, e se teria surpreendido, no dia seguinte, com o fato de reencontrar o ícone no mesmo lugar do dia anterior, mesmo que o tivesse guardado em sua residência. Esse fato se teria repetido por dias seguidos, até o humilde homem compreender que naquele lugar havia de construir uma capelinha para abrigar o que encontrara. Não demorou para que muitos dos que por ali transitavam passassem a acender velas, deixar papéis escritos e, depois, até esculturas de cera indicativas, por certo, de graças recebidas. É onde se encontra construída hoje a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré e onde continuam sendo depositados objetos que representam louvores por curas diversas obtidas por fiéis.

Dizia-se, na época, que a imagem encontrada por Plácido teria pertencido a jesuítas portugueses que trabalharam na Província do Grão-Pará, o que teria autorizado o bispo Evangelista a enviar, em 1773, pedidos formais à rainha de Portugal D. Maria I e ao Papa Pio VI para realizar festividade em homenagem à santa então já incorporada à crença do povo católico da região.

Em 1792, quando, afinal, a autorização fora obtida, o governante da província do Grão-Pará e Rio Negro, Francisco Coutinho, visitando a capela e constatando a devoção, decidiu fazer nos arredores uma feira de produtos agrícolas para atrair mais pessoas de outras localidades. Deu-se que o capitão-mor adoeceu e prometeu à santa que, obtida a cura, mandaria rezar uma missa em ação de graças e cuidaria de transportar a imagem no que hoje se chamaria de andor, procissão que de fato ocorreu em 8 de setembro de 1793 e é considerado o primeiro Círio de Nazaré.

Nos tempos atuais, há uma semana inteira dedicada a homenagear a Virgem, com celebrações e festividades preparadas ao longo de todo o ano, atraindo pessoas das mais diferentes nacionalidades e funcionando como importante atração turística da região.

Na 6ª feira que antecede o ápice da festa, há o traslado da imagem abençoada da Basílica até a igreja de Nossa Senhora das Graças, na cidade de Ananindeua, próxima de Belém, em cuja matriz permanece por toda a noite com grande quantidade de fiéis em vigília que se estende até a manhã do dia seguinte.

Às horas primeiras do sábado, também por via rodoviária, a imagem é conduzida em procissão até Icoaraci, já de volta à Capital, de onde retorna  em corveta da Marinha do Brasil que comanda procissão de encantamento que se confunde com a beleza das águas que abençoa. É o Círio fluvial acompanhado, em festa e em contrição, por centenas de barcos regionais de diferentes portes, canoas, iates, todos lotados de devotos da santa.

No porto, em solenidade de rigor militar, a imagem é entregue aos responsáveis pela Igreja e dali segue, acompanhada por milhares de motociclistas e de ciclistas. É a moto-romaria, que sai da Estação das Docas, onde a corveta aporta, em direção ao Colégio Gentil Bittencourt.

No final da tarde do sábado dá-se a procissão da trasladação, quando a imagem é conduzida em uma berlinda atrelada a uma corda de quase meio quilômetro de extensão, onde fiéis se amontoam em gesto extremo de devoção, com louvores, agradecimentos, preces, hinos, promessas e lágrimas, e é levada do  colégio Bittencourt para a Catedral da Sé, onde permanece sob vigília até o início do domingo.

Ao raiar do dia de domingo realiza-se o maior de todos os cortejos, a procissão que conduz a imagem da santa da Catedral à Basílica de Nazaré. É o Círio, que une homens e mulheres de todas as idades, crianças, jovens, adultos, idosos de todas as raças, de diferentes lugares do planeta em uma comunhão de sentimentos impossível de ser descrita, menos ainda qualificada, pela magia e pelo encantamento de que se reveste.

A procissão do Círio de Nazaré reúne mais de 2 milhões de fiéis, segundo registram as autoridades do lugar, e segue um trajeto que vai da Catedral da Sé até a Basílica de Nazaré. Trata-se do que se pode chamar do auge do Círio. Tudo começa, nascendo o sol,  com a celebração de uma missa em frente à Catedral e em seguida a imagem da santa é conduzida pelo arcebispo até a berlinda, cuidadosa e artisticamente preparada para recebe-la, farta em ricos arranjos de flores, para seguir o trajeto até a basílica.

Muitos são os fiéis que formam um cordão ao longo da corda, verdadeira e intensa corrente humana unida por fé inquebrantável e inigualável. Muitos devotos acompanham descalços todo o longo percurso da procissão. Outros conduzem crucifixos, imagens da padroeira e objetos que representam pedidos ou graças já alcançadas, como esculturas de órgãos do corpo humano, miniaturas de casas, de barcos ou de canoas, livros, cadernos e tantos outros. E seguem entoando, a todo o tempo, hinos de louvor e orações que ecoam pela longa avenida.

Este ano de 2020, tudo se deu de forma diferente. Orientações dos órgãos responsáveis pela saúde pública, a partir da Organização Mundial de Saúde, fizeram que as festividades ficassem restritas à Basílica, sem as procissões tradicionais que, evidente e inevitavelmente, importariam em aglomerações indesejadas e até institucionalmente proibidas, com vistas a evitar a transmissão da doença provocada por vírus que se espalhou pelo mundo inteiro, vitimando milhões de pessoas. Felizmente, o acesso rápido e franco aos diferentes meios de comunicação permitido pela tecnologia moderna há de ter feito que  milhões de fiéis cumprissem rituais de devoção em suas próprias casas, sem deixar, portanto, de homenagear a Padroeira.

No dia último do mês, trago minha singela demonstração de fé, em quase-poesia que denominei de AVE MARIA, assim:

Ave Maria,

Senhora de Nazaré

virgem da Cova da Iria

santa esposa de José

por Deus, cheia de graça

nada na vida se faça

sem a tua proteção,

tudo que a gente passa

tenha sempre tua benção

acalmando o coração.

O Senhor é contigo

e em horas de tormento,

em instantes de saudade,

de dor, de sofrimento,

és tu que estás comigo

pra me mostrar a verdade.

Entre as mulheres, bendita

o Filho deste à luz

depois tiveste desdita

de seu martírio na cruz.

Teu ventre é bendito

relicário de amor

como o anjo anunciou

por milagre agasalhou

o Cristo, nosso Senhor.

És santa mãe de Jesus

roga por nós, pecadores,

na hora dos dissabores,

de medo, de desencanto,

tu me enxugas o pranto

tua força me conduz.

És missionaria do Bem,

na vida me fazes forte,

que na hora de minha morte

tu não me faltes também

que assim seja, amém.