Conectividade também é política ambiental
Adotar os leitos dos rios como corredores naturais de conectividade evita grandes intervenções terrestres e corte de vegetação
No Mês do Meio Ambiente, queremos ampliar a forma como discutimos sustentabilidade. A agenda ambiental não está só nas políticas de conservação, mas também nas escolhas feitas para construir infraestrutura. No caso da conectividade, essa reflexão é ainda mais urgente: o Brasil precisa avançar na inclusão digital, mas deve fazer isso respeitando seus biomas e suas comunidades.
Essa é a visão que orienta o Norte Conectado: a conectividade também pode ser uma política ambiental quando a infraestrutura é planejada para respeitar o território, reduzir impactos e gerar inclusão. Na Amazônia, onde água e floresta organizam a vida, o projeto foi concebido para seguir os rios, e não para impor à região uma lógica externa.
Coordenado pelo Ministério das Comunicações, em parceria com a Anatel, por meio do GAISPI, e executado pela EAF, o Norte Conectado leva cabos de fibra óptica pelos leitos dos rios. Adotá-los como corredores naturais de conectividade evita grandes intervenções terrestres e corte de vegetação. A estimativa do MCom é que essa solução preserve 68 milhões de árvores.
Esse desenho é relevante também no contexto das mudanças climáticas. Sem grandes interferências, ele contribui para manter a capacidade da floresta de capturar carbono e preservar a biodiversidade. Os cabos são passivos, inertes e atóxicos. Não são energizados nem emitem campo eletromagnético, o que evita impacto disruptivo sobre fauna e flora aquáticas.
O Norte Conectado é, ainda, um projeto de alta engenharia e de alto impacto social. Serão 13,2 mil km de cabos subfluviais, com potencial de beneficiar 7,5 milhões de pessoas em 70 cidades de seis estados. Em cada localidade atendida, a infraestrutura viabiliza conexão gratuita para equipamentos públicos, como escolas, hospitais, praças, sedes da Funai e unidades das Forças Armadas. Isso significa ampliar acesso a educação, telemedicina, serviços públicos, informação e oportunidades.
Todas as etapas seguem os processos de licenciamento ambiental, incluindo consulta prévia e anuência de comunidades, com participação de órgãos como Funai e Incra. Para nós, esse cuidado é parte da sustentabilidade. Muito nos orgulha ouvir declarações como a de Nayara Kambeba, da etnia Kambeba e participante do Terra Preta: “Primeira vez que uma empresa chega e pede licença para adentrar em nosso território”.
O Terra Preta é uma das iniciativas que traduzem essa visão. O programa promoveu oficinas sobre comunicação popular, segurança digital e combate à desinformação, para que comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas possam se apropriar da conectividade e contar suas histórias, acessar direitos e fortalecer sua autonomia.
A sustentabilidade da EAF não se limita ao Norte Conectado. No Edital de Gestão de Resíduos Eletrônicos, lançado em 2025 com aporte de R$ 1 milhão, apoiamos dez projetos no Nordeste. A iniciativa alcançou 29 cidades em cinco estados, destinou corretamente 38 toneladas de resíduos eletrônicos, evitou a emissão de 70 toneladas de CO₂, capacitou 400 catadores e mobilizou 27 mil estudantes em ações de conscientização ambiental.
Esses projetos mostram que desenvolvimento digital e responsabilidade ambiental não são caminhos opostos. Quando há planejamento e escuta, a infraestrutura pode preservar a floresta, fortalecer comunidades e ampliar oportunidades. No Mês do Meio Ambiente, essa é a mensagem que queremos reafirmar: conectar o Brasil também pode ser uma forma de cuidar do Brasil.
* Gina Marques é CEO da EAF e lidera projetos ligados ao edital do 5G. Sob sua gestão, a entidade executa, além do Norte Conectado, outros programas de infraestrutura coordenados pelo Ministério das Comunicações e pela Anatel