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A Crítica
Opinião

CPI deixa lições para não serem esquecidas

No Brasil, mais de 600 mil indivíduos se foram. Deixando outros milhares de órfãos, viúvas e muitos pais que perderam seus amados filhos —algo tão antinatural que não há substantivo que defina.

Publicado em 26/10/2021 às 23h56 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h46
CPI deixa lições para não serem esquecidas
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Por Omar Aziz – Senador e presidente da CPI da Pandemia 

A Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga os erros de gestão na pandemia do COVID-19 não foi uma investigação política qualquer. Ela estava dentro da casa de cada brasileiro. Antes, as CPIs no Congresso pareciam abstratas, as pessoas não entendiam muito os seus complexos processos e engrenagens. Mas essa não. Todos os brasileiros sabem do que se trata, já que a pandemia, como uma guerra, afetou a toda a população do país. Mesmo quem não foi vítima direta da doença foi afetado indiretamente, pela perda de parentes e amigos ou por suas consequências econômicas, educacionais, sociais ou psicológicas.

Outra coisa diferente nessa CPI é que, nas anteriores, quando se investigava a corrupção ela normalmente cessava. Nessa comissão, começamos a investigar e o vírus continuou a matar. E isso nos traz a dor de não conseguir fazê-la parar —embora não se possa tirar o mérito que a CPI teve de agilizar a vacinação dos brasileiros.

As lições deixadas pela CPI jamais serão esquecidas. Nenhuma pessoa merece passar os restos de seus dias suportando o vazio da perda de um filho para uma doença. Nenhum mulher deveria ter de criar seus filhos com a ausência de um companheiro levado por um vírus. Nenhum filho tem que lidar com a dor de ter perdido seus pais sem oxigênio no leito de um hospital porque a vacina não chegou a tempo.

No Brasil, mais de 600 mil indivíduos se foram. Deixando outros milhares de órfãos, viúvas e muitos pais que perderam seus amados filhos —algo tão antinatural que não há substantivo que defina.

A natureza tem seus caminhos e mostra a fragilidade do ser humano frente a moléstias desconhecidas. Mas a inépcia humana na gestão da contenção da doença não pode ser tolerada em momentos como esse. A história cobrará o preço das  consequências desses erros e punição a quem falhou. Mas urge, hoje, uma sociedade cobrando justiça às vítimas.

A Comissão Parlamentar de Inquérito que tive a honra de presidir buscou isso: Justiça! Nosso trabalho foi investigar os erros na gestão da pandemia. Apontar equívocos. Sugerir soluções. Cobrar resoluções. Acredito que tivemos resultados positivos.

Esse relatório é uma peça conclusiva desse trabalho. Desse período triste de nossa história. Mas nosso trabalho não terminou. Como senadores, representantes do povo, ainda temos a missão de continuar alertas frente a essa pandemia. Não podemos baixar a guarda ou relaxar nas medidas necessárias para controle da COVID-19. E vai além disso. Ainda há milhões de pessoas que venceram a doença e ficaram com fortes sequelas, neurológicas, pulmonares, cardíacas. Ainda há muito o que se estudar e muitos brasileiros para serem realmente curados.

A CPI, com seu trabalho técnico e baseado em fatos e evidências, conseguiu mostrar ao Brasil como o descaso, a negligência e a omissão do governo federal na aquisição de vacinas e a sua insistência em medicamentos sem eficácia comprovada contribuíram para agravar a pandemia. Esperamos que os resultados da CPI sejam levados adiante, com a devida punição aos responsáveis.

No curso dessa dramática e impactante tragédia, nós aprendemos algumas coisas que devem ficar em definitivo na consciência dos brasileiros. Quando está em jogo questões cruciais como o direto à vida e à saúde, não podem existir dois lados. Que isso fique de legado para as atuais mandatários e para as gerações que virão. Nosso país pode muito mais e poderá superar as piores crises se estiver sempre forte e unido e nunca com divisões artificiais.

A CPI, com seu trabalho transparente, fez com que o governo acordasse para a importância da vacinação e corresse atrás do tempo perdido. Se hoje mais de 50% dos brasileiros estão completamente imunizados e as curvas de mortes e casos estão decrescentes, muito se deve aos esforços dos membros da CPI e à consequente pressão da sociedade.

Toda a solidariedade e os melhores sentimentos para os familiares e amigos das vítimas dessa tragédia sem precedente. Que a dor de todos vocês, mesmo irreparável, seja ao menos minimizada com a punição exemplar dos responsáveis. Que esse relatório sirva de base para esse acerto de contas e para superar esse lamentável capítulo de nossa história.

A CPI não acaba com a aprovação desse relatório. Nossa investigação já alimentou com provas ou provocou a abertura de pelo menos oito procedimentos em curso em seis órgãos diferentes de controle. A comissão avançou em diferentes frentes, acumulou um volume expressivo de documentos e conseguiu materializar provas de crimes, omissões e irregularidades no enfrentamento da pandemia. Tudo o que por nós foi produzido estará à disposição para todos que queiram prosseguir com investigações ou apurações sérias e transparentes.

Que os brasileiros de bem saibam que continuaremos todos vigilantes, acompanhando os desdobramentos da pandemia e prontos para cobrar qualquer tipo de omissão ou prevaricação dos responsáveis pela punição dos culpados. As vítimas da pandemia podem ter certeza de que faremos tudo para que tenham justiça.