Manaus seg, 19 out
A Crítica
Opinião

Crianças em perigo dentro de casa

Preocupante perceber que os suspeitos contam com uma rede de apoio mais eficiente que as vítimas, com a atuação de um falso perito que coagia as meninas para perpetuar a impunidade dos criminosos

Publicado em 30/04/2025 às 09h11
Crianças em perigo dentro de casa
Foto: Arquivo A CRÍTICA

É estarrecedor o caso das adolescentes com idades entre 13 e 15 anos estupradas por membros da própria família no município de Beruri. Assustador pensar quão frequentes são casos como esses, sobretudo no interior da Amazônia, em face do vazio institucional que se impõe  nas áreas mais longínquas. 

Preocupante perceber que os suspeitos contam com uma rede de apoio mais eficiente que as vítimas, com a atuação de um falso perito que coagia as meninas para perpetuar a impunidade dos criminosos. 

Proteger a mulher contra todas as formas de violência é um dos  grandes  desafios do Estado e da sociedade, missão que se torna ainda mais desafiadora quando se trata de crianças e adolescentes. 

Estruturar delegacias e conselhos tutelares, criar canais eficazes para denúncia e locais de acolhimento às vítimas são algumas medidas indispensáveis que, porém, demandam tempo, investimentos e vontade política.

Tão ou mais relevante que tais providências é a construção de uma  cadeia protetiva no seio das comunidades: o sentimento de que a violência sexual contra crianças e adolescentes é inaceitável e deve ser combatida pela família, por vizinhos e por qualquer pessoa que tenha conhecimento da atividade criminosa. A segurança dos menores é da conta de todos, ao contrário do que muitos ainda pensam. 

Um dos principais obstáculos ao enfrentamento dos casos de estupro de menores, lamentavelmente, é a conivência de familiares. A família é quem as vítimas buscam primeiro quando criam a coragem para denunciar. O não acolhimento acentua o sofrimento, tornando a situação ainda mais desesperadora. O sentimento coletivo de proteção  os menores, associado à disposição para agir diante de abusos não se constrói de uma hora para outra. 

É preciso educação e um processo de conscientização social que também demanda tempo. O desafio é gigantesco, mas não pode ser ignorado. Precisamos evoluir para um tempo em que crianças não sejam mais violentadas, nem em suas próprias casas, nem em lugar nenhum, e que eventuais crimes dessa natureza sejam prontamente denunciados e os criminosos, punidos.