Democracia sempre!
A realização de manifestações em algumas capitais brasileiras no último domingo com pedidos de “intervenção militar” e edição de medida similar ao Ato Institucional nº5, que restringiu direitos civis durante a ditadura militar e marcou o início dos “anos de chumbo” do regime é um sintoma da gravidade da situação atual do País. O Brasil acaba de ultrapassar a marca de 2,5 mil mortos por covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, os sistemas de saúde em vários estados estão à beira do colapso, o número de infectados não para de crescer, e as incertezas em relação ao futuro da economia estão cada vez maiores. Uma ruptura institucional em meio a esse panorama seria a tempestade perfeita, com consequências imprevisíveis para o País.
Pessoas que saem de suas casas, ignorando os riscos de infecção, para defender o fim da democracia manifestam absurda ignorância e irresponsabilidade.
A participação do presidente da República em ato com essa conotação em Brasília é lamentável. Como não poderia deixar de ser, a resposta da sociedade foi imediata, com manifestações de repúdio por parte de partidos, lideranças políticas, entidades da sociedade civil, além de representantes do Legislativo e do Judiciário. A resposta foi ouvida e aparentemente compreendida, já que o presidente falou, ontem, em defesa do Supremo e do Congresso, para decepção dos apoiadores mais radicais.
Enquanto isso, a situação no Brasil apenas piora, e vai continuar piorando enquanto os líderes da República continuarem criando conflitos desnecessários, como se o País não tivesse a maior crise da história recente para enfrentar. Esse é um desafio do mundo inteiro e a maioria das nações está fazendo esse enfrentamento sem a guerra política que se observa no Brasil. Israel acaba de dar um exemplo para o mundo: O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e seu rival político, Benny Gantz, deixaram as diferenças de lado e formaram um governo de coalizão. Eles entenderam que neste momento de crise sem precedentes, a política precisa ficar em segundo plano, a prioridade tem que ser o combate à pandemia, a preservação de vidas. Essa percepção, infelizmente, ainda não chegou ao Brasil, onde algumas das principais lideranças políticas do País estão mais preocupadas com as eleições que ocorrerão só em 2022.
*Foto: Ueslei Marcelino / Reuters