Desserviço à economia nacional
Mais uma vez, o governo federal manifesta seu completo descaso em relação ao modelo Zona Franca de Manaus. E, desta vez, com toques de cinismo. Ao mesmo tempo em que atendeu aos apelos das lideranças políticas e empresariais do Estado e revogou a redução de 35% para 20% do imposto sobre importação de bicicletas, o Ministério da Economia já prepara um novo ataque, ainda mais abrangente. Encontra-se em gestação avançada na Câmara de Comércio Exterior (Camex) uma resolução que estabelece corte de 10% na alíquota de eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos importados. A medida prejudica toda a indústria eletroeletrônica do País, mas atinge a Zona Franca de forma ainda mais dura, pois o polo de eletroeletrônicos é o carro-chefe do modelo de desenvolvimento amazonense.
Basta lembrar que os subsetores de bens de informática e eletroeletrônicos respondem, juntos, por mais da metade do faturamento do Polo Industrial de Manaus e empregam praticamente 40% de toda a força de trabalho. São mais de 39 mil empregos relacionados a esses setores. Seu enfraquecimento pode significar milhares de desempregados no Estado, no momento em que o País inteiro sofre com a escalada do desemprego.
Não é fácil compreender as motivações do ministro da Economia, Paulo Guedes, para tal atitude. Quando todos os países sérios do mundo buscam formas de fortalecer no curto e médio prazo suas próprias economias, o Brasil caminha no sentido oposto. Pressionado pela guinada populista do presidente da República, Guedes quer mostrar que ainda mantém firmes seus princípios liberais. Ele pretende, com o estímulo aos importados, favorecer a concorrência, o que poderia levar a indústria nacional à modernização, buscando meios de produzir mais e melhor. Porém, não é preciso ter estudado economia em Chicago para saber que este é o pior momento possível para tal medida. Com diversos setores industriais em frangalhos por causa da pandemia de covid-19, diante de uma crise que ninguém sabe quando vai terminar, o Ministério da Economia presta um desserviço à nação. No cenário atual, favorecer a entrada de importados é estimular a economia de outros países e agravar ainda mais a situação já complicada da indústria brasileira, principalmente o setor de eletroeletrônicos.