Devastação desenfreada
Em janeiro, foi registrado um novo recorde de desmatamento na Amazônia, com a supressão de aproximadamente 360 quilômetros quadrados de floresta, quatro vezes mais que o desmatamento de janeiro do ano passado. O dado foi recebido com muita preocupação por ambientalistas, que temem destruição desenfreada ao longo de 2022. A Amazônia enfrenta três anos de aumentos sucessivos no desflorestamento, e este pode ser o pior. Além disso, para além do crime ambiental em si, o avanço do desmatamento na Amazônia reflete o roubo de terras públicas para fins econômicos ilegais, visando enriquecimento próprio. Estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) revela que mais da metade do desmatamento ocorrido nos últimos três anos ocorreu em terras públicas, principalmente (83%) em áreas federais.
É evidente que a estratégia federal empregada até agora – a militarização do combate aos crimes ambientais – não surtiu o efeito desejado, e a derrubada da floresta só avança ano após anos, alcançando índices alarmantes. Em 2021, a devastação foi a maior dos últimos 15 anos. O governo federal precisa repensar, não apenas as ações a respeito da preservação da Amazônia, mas toda a política ambiental. As estratégias devem, urgentemente, sair do campo do discurso. Dizer que a combate ao desmatamento ilegal e a prevenção e combate aos incêndios são pautas prioritárias é admitir que tal prioridade não foi capaz de produzir impactos positivos.
Uma das medidas óbvias que não estão sendo implementadas é a aplicação dos recursos carimbados para a área ambiental. É fato que, no ano passado, menos da metade das verbas que deveriam ser destinadas à fiscalização foram efetivamente usadas. Sem recursos suficientes, os órgãos com a missão de reprimir crimes como o desmatamento e as queimadas ilegais – Ibama e ICMbio – sofrem para manter-se atuantes e relevantes em meio ao aumento da criminalidade.
O combate ao avanço acelerado da destruição da floresta Amazônica exige ação imediata; precisa de investimentos, de fortalecimento dos órgãos ambientais, de atuação coordenada com os Estados e de uma radical mudança de postura governamental em relação ao tema. Não é algo que deva ser politizado, sob pena de assistimos a mais um ano de devastação desenfreada.