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A Crítica
Opinião

Diante do espelho

"Cultores submissos da mentira, são levados ao exagero por sua volúpia de poder e dinheiro (sem que se saiba o que vem primeiro) e preferem esconder a verdade, dela escondendo-se, também"

Publicado em 19/06/2025 às 10h07
Diante do espelho
Foto: Getty Images

As redes antissociais trazem mensagem afinada com estes tempos em que a proposta de Goebells tenta aniquilar qualquer intenção de veracidade. Aquilo que os pobres falantes da língua de Camões chamam fake-news, porque dizer mentira parece vergonhoso. Mais, até, do que os feitos e façanhas que pretendem comunicar. Matéria que desafia a dignidade de seres que se podem considerar humanos, à diferença dos que propagam as falsas narrativas, a impressão que se tem é a de um interlocutor posto diante de um espelho.

Esse encontro, portanto, é tão irreal quanto o podem ser as telas – sejam de televisores, sejam as de qualquer computador ou sofisticado telefone celular. Tentam os mentirosos e abjetos divulgadores, transformar em fatos acusações e comentários atribuíveis a eles mesmos e às laias que costumam cercar esse tipo de gente(?). Ainda que restem dúvidas sobre se a todos os animais possamos atribuir essa condição.

Quase ninguém mais se preocupa em buscar as causas do fenômeno, restando isso apenas aos que têm apreço pela vida em sociedade e já perceberam quanto a supremacia do indivíduo, com seus vícios mais que com suas virtudes, pode comprometer até a vida do Planeta. Mente-se descaradamente, inclusive trocando os papéis dos atores da tragédia que bem poderia ser intitulada A vida como ela não deveria ser. Todos parecem condenados a confirmar o viralatismo denunciado pelo jornalista e teatrólogo Nélson Rodrigues. Ignorantes da sábia sentença criada não se sabe exatamente quando: dize-me com quem andas, que direi quem és. A que eu acrescento a correspondente dizem-me quem és, e te digo com quem andas. Informam as redes antissociais de relações criminosas entre famílias e famiglie, sem sequer perceberem seus comunicadores estarem em mero exercício autobiográfico.

Dizem daqueles a quem não são afeiçoados, aquilo que qualquer cidadão de boa fé e bem-intencionado diria deles. Estabelecem vínculos apenas supostos quando falam de terceiros, sem se lembrarem de que nos seus casos particulares cabem, com doses comprovadas de razão, os (péssimos) atributos que dizem encontrar naqueles. Enfim, à falta de argumentos capazes de contradizer as palavras, as denúncias, as ações (policiais ou judiciárias, ou quaisquer outras) com alta dose de delinquência por eles praticadas, tentam fixar rótulos, marcar a ferro e fogo típicos da malignidade, os que são objeto de suas calúnias. Mais se acumulam as provas contra atos delituosos praticados por esses criminosos, maior fica sua maligna ousadia. Mesmo quando o volume de provas resulta de sua própria crença na impunidade e da probabilidade de os levar ao confronto com as leis penais, desejam levar sua maldita missão adiante.

Apostam, portanto, que todos terão ouvidos de mercador ou, no limite, suas ameaças e suas mentiras acabarão por impor-se a todos. Felizmente, há os que enxergam um palmo ao menos, adiante do nariz. E denunciam esse estranho monólogo, em que o espelho não consegue constituir-se em caixa de ressonância, ficando apenas no papel da cloaca que esconde a purulência e o mau cheiro das palavras propagadas.

Cultores submissos da mentira, são levados ao exagero por sua volúpia de poder e dinheiro (sem que se saiba o que vem primeiro) e preferem esconder a verdade, dela escondendo-se, também. Por isso, distorcem a realidade e tentam fazer dos outros a quem não dedicam a menor tolerância, o que eles mesmos são. Só o espelho pode aceitar sem reação sua maldade.