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A Crítica
Opinião

Discurso e prática

Publicado em 23/04/2021 às 11h55 · Atualizado em 13/03/2022 às 19h23
Discurso e prática

No mesmo dia da reunião do clima convocada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden – que contou com a participação do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – o coordenador geral de proteção do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMbio), Diego Bezerra Rodrigues, pediu demissão. O motivo: Rodrigues discordou de mudanças promovidas por Salles no sistema de multas, mas teve seus apontamentos ignorados pelo ministro. A alteração na norma paralisou o trabalho dos agentes ambientais em todo o País. Enquanto Rodrigues apresentava sua carta de demissão, os representantes brasileiros apresentavam novos compromissos e metas ousadas na reunião de Bide.

A participação do governo brasileiro na reunião que discutiu medidas concretas contra as mudanças climáticas não deixa de ser um avanço. Mesmo recorrendo a conquistas compartilhadas com gestões anteriores, o governo brasileiro assumiu compromissos relevantes em termos de redução do desmatamento e da emissão de carbono. Só o fato de ver o chefe do Executivo adotando uma postura conciliatória, abrindo mão da habitual confrontação, é, de certa forma, um alento.

Para o atingimento de tais metas ser obtido, o governo deve promover uma guinada real na política ambiental em curso. E isso não pode ser feito de uma hora para outra. Desde o primeiro dia de Salles no ministério, vem se construindo uma gestão que privilegia atividades econômicas nem sempre legais – extração madeireira, garimpo, mineração, agropecuária etc – na Amazônia. O intento do ministro enfrenta os limites impostos pela própria legislação, daí seu esforço em aproveitar a pandemia para fazer “passar a boiada”, isto é, alterar as normas tidas como “antidesenvolvimentistas”. Parece já estar implantada uma inércia antiambiental na esfera federal.

O governo só conseguirá convencer o mundo de suas boas intenções e, assim, deixar a incômoda posição de pária ambiental, se as adequadas palavras ditas na reunião do Clima forem seguidas de novas atitudes. É hora de se mexer.