Economia e transtorno climático
Há uma situação de pânico por parte de pessoas que moram outras cidades e necessitam diretamente dos rios em condições normais e temem experimentar situação similar àquela vivida no ano passado
As conversas de alguns coletivos na última semana tinham entre outros temas a estiagem dos rios no Amazonas. Há uma situação de pânico por parte de pessoas que moram outras cidades e necessitam diretamente dos rios em condições normais e temem experimentar situação similar àquela vivida no ano passado.
Famílias que residem em Manaus e têm parentes vivendo em outros municípios referem-se a esse quadro com preocupação e demonstram sofrimento antecipado quer pela possível repetição do trauma vivido quer pelo prejuízo causado e ainda experimentando. Esse é um dos aspectos que não tem sido considerado na tomada de decisão por parte dos governos ao tratar do evento.
Há prevalência do discurso econômico sobre os demais, em função de uma cultura que está baseada no gerenciamento econômico-financeiro numa linha mais financista que historicamente tenta separar o social da pauta econômica como se esta não fosse parte dos estudos das ciências humanas. O que se verifica, em diferentes regiões do mundo e de modo mais intenso é a necessidade de fazer a comunhão nessa área.
A condução da economia e, aí, dos financiamentos para essa ou aquela ação, não deveria mais ser determinada pelo mercado – um grupo de poucas pessoas que detém poder para interferir e deliberar as decisões. O humor bom ou ruim do mercado tem corpo e cara, atua fortemente na condução da política que nunca é só econômica e sim política, social, cultural.
No tema estiagem dos rios do Amazonas e da Amazônia estão relacionados diversos aspectos desde a vida cotidiana de milhares de pessoas quanto ao impacto desse quadro nos negócios do Estado. Se os aspectos não forem considerados, o que deverá prevalecer é a repetição de uma performance que se estabelece nos seguintes passos: alcança temporariamente, com poucas e frágeis ações, algumas famílias; vira peça publicitária da comunicação governamental e promove esquecimento sobre as iniciativas que contemplariam o dia seguinte.
O adoecimento é parte dessa experiência embora tratada apenas pelo viés da economia. Mudar a maneira como o assunto se insere na pauta governamental, do setor empresarial e da sociedade é um dos desafios. A mudança, respeitando esse ingrediente, oferece real possibilidade de compreender o que é investimento, cuidado, prevenção e justiça.
*Nota do editor: Reportagem de A CRÍTICA em outubro de 2023 revela o drama de ribeirinhos vivendo no auge da maior seca da história do Amazonas.