Editorial AC: O trabalho ágil da Câmara contra a democracia
Os deputados federais comprovaram, mais uma vez, que quando querem trabalhar firme trabalham
Os deputados federais comprovaram, mais uma vez, que quando querem trabalhar firme trabalham. Na sessão da terça-feira (16), a pauta mobilizou e estendeu a jornada dos parlamentares. Trata-se da Proposta de Emenda à Constituição (PEC, de nº 3/2021) da qual constam mecanismos para dificultar a tramitação de processos criminais contra deputados e senadores. O texto-base aprovado, em dois turnos, contempla a execução de mandados de prisão. A matéria segue para a apreciação do Senado.
Na Câmara Federal, a primeira votação precisava de 308 votos a fim de a PEC avançar. Recebeu 353 votos favoráveis, 134 contra. No segundo turno de votação, às 23h40, duas horas depois da primeira, foram 344 pela aprovação da PEC e 133 contrários. Com um detalhe, também foi aprovado por ampla maioria um requerimento que propunha a dispensa o intervalo de cinco sessões entre uma votação e outra. Toda estratégia assegura agilidade na votação da matéria.
Batizada de ‘PEC da Blindagem”, o dispositivo determina que a abertura de qualquer ação penal contra parlamentar depende de autorização prévia, em votação secreta, da maioria absoluta (metade mais um) do Senado ou da Câmara. Se aprovada, a PEC se constituirá em um dos mais graves retrocessos dos últimos tempos. Parlamentares possuem foro privilegiado e, dessa maneira, se tornariam em ilha privilegiada. Mais ainda a proposta aprovada na Câmara dos Deputados concede foro para presidentes de partidos com assento no parlamento no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF).
A maioria dos líderes da Câmara, com apoio da oposição liderada pelo Partido Liberal (PL) articulou o processo vitorioso, por enquanto na Câmara, de acordo com a EBC. No Senado, a proposta terá que receber 41 votos favoráveis dos 81 senadores para ser sancionada pelo próprio Congresso Nacional, sem necessidade da apreciação do presidente da República. A proposta é desengavetada em meio aos julgamentos dos participantes da tentativa de golpe no Brasil na qual estão envolvidos parlamentares e líderes de partidos.
A autorização prévia do Senado ou da Câmara, em votação secreta para autorizar ou não a abertura de ação penal contra parlamentar é uma das questões mais absurdas que a matéria contempla. Caberá a sociedade, aos eleitores e às instituições que lutam pela probidade e o decoro parlamentar agir diante do que a Câmara acaba de aprovar em tempo recorde.