Efeitos da vitória de Biden
A vitória de Joe Biden nas eleições norte-americanas, a despeito da relutância de Donald Trump em aceitar os fatos, é boa para o Brasil por três motivos. Significa o fim do alinhamento automático do Brasil aos Estados Unidos, provocará uma necessária mudança de rumos na política externa brasileira, e pode levar o governo Bolsonaro a desenvolver, finalmente, uma política ambiental. Diante desse cenário, o Brasil tem, sim, o que comemorar. A contagem de votos nos estados norte-americanos foi atentamente acompanhada no Brasil, reflexo da polarização que se instalou em diversas nações nos últimos anos. Diferente do que pode parecer à primeira vista, o próprio bolsonarismo pode acabar se beneficiando das mudanças que virão.
O fim do alinhamento automático à política externa norte-americana chega em boa hora. Era simplesmente constrangedor ver o governo brasileiro aderir instantaneamente a qualquer posicionamento do governo Trump, por mais descabido que parecesse, por mais que contrariasse os próprios interesses comerciais do Brasil, como ficou escancarado quando os Estados Unidos resolveram sobretaxar o aço brasileiro em 50%, inviabilizando nossas exportações. A ascensão de Biden não significa o fim do protecionismo norte-americano, mas espera-se que o Brasil, em casos com o esse, pelo menos esperneie e busque o diálogo. Espera-se o fim de uma subserviência tão danosa quanto constrangedora.
A política externa brasileira terá que adotar um padrão mais técnico e menos ideológico, o que pode significar, inclusive, a troca de comando no Itamaraty. Sem as diretrizes trumpistas para se espelhar, a diplomacia brasileira tende a retomar o embasamento técnico que nunca deveria ter abandonado.
O terceiro fator é a revisão da política ambiental, o que também pode exigir troca de comando no Ministério do Meio Ambiente. Esta significaria o ápice da metamorfose no bolsonarismo, e pode ser positiva para o modelo pois o aproximaria de algo mais aceitável, diminuindo resistências e ampliando chances para 2022. É claro que isso tudo são suposições. O governo brasileiro pode simplesmente decidir continuar como um porta-voz de um trumpismo abalado, o que resultaria em isolamento internacional, mas isso é pouco provável.