Enfrentamentos inúteis
Ao manter os juros nas alturas, o Copom desencadeou reações explosivas por parte do governo federal, estremecendo ainda mais as relações entre ambos
Os juros praticados no Brasil entram novamente em evidência após o Comitê de Política Monetária (Copom) decidir, na última quarta-feira (22), manter a taxa básica de juros da economia elevadíssimos 13,75% ao ano. A decisão jogou gasolina na relação já incendiária, entre o governo federal e o Banco Central.
Aos desavisados, cabe lembrar que a atual diretoria do BC foi alçada a esses postos na antiga gestão federal, e mantém uma relação estreita com as ideias do ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, o que, claro, desagrada o novo governo petista, que não pode simplesmente remover o atual presidente do BC porque o mesmo tem mandato a cumprir e deve ficar até 2024.
Ao manter os juros nas alturas, o Copom desencadeou reações explosivas por parte do governo federal, estremecendo ainda mais as relações entre ambos.
Esse tipo de relação entre instituições de tamanha envergadura é péssimo para o País e não ajuda na necessária retomada do crescimento. O Copom tem razões técnicas para manter os juros no patamar em que estão, afinal, a inflação não deu sinais de arrefecimento, e o governo ainda não apresentou o prometido novo arcabouço fiscal do País, elemento decisivo para a tomada de decisões sobre os juros.
Mas, mantendo sua linha técnica, não deveria ter partido para a “trocação” com o governo, usando termos desafiadores na ata da última reunião. O governo, por outro lado, não pode querer que o Copom baixe os juros apenas na base da pressão.
É preciso apresentar ao país, de uma vez por todas, a proposta de novo arcabouço fiscal que, ao que tudo indica, já está pronto, e está longe de ser unanimidade.
Uma parte considerável dos economistas com pensamento mais tradicional defende que os juros são a melhor arma para combater a alta inflação, sendo imprescindível mantê-los elevados para segurar a alta dos preços.
Uma outra ala, mais heterodoxa, defende que tal eficácia tem limites e que juros muito altos, por muito tempo, em vez de ajudar, prejudicam ainda mais a economia, freando crescimento e podendo, até mesmo, causar recessão.
Atualmente, governo e BC se posicionam em campos opostos quanto a tais interpretações. Mas a divergência deve ser motivo para debates técnicos, não para enfrentamentos sem objetividade como vem acontecendo.