Manaus dom, 18 out
A Crítica
Opinião

Exploração da fé deve ser crime

Publicado em 11/07/2020 às 12h34 · Atualizado em 13/03/2022 às 20h12
Exploração da fé deve ser crime

Um caso em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode causar fortes repercussões no processo eleitoral brasileiro. Uma vereadora de Goiás tem o mandato questionado sob a acusação de abuso de poder religioso, uma prática que ainda não é crime, mas que levou os magistrados a ponderar que deveria ser. 

Há uma relação de confiança entre pastores, padres e quaisquer lideranças religiosas em relação ao grupo de fiéis sob influência deles. O líder é quase sempre visto como alguém munido de uma autoridade quase divina e exerce inegável influência sobre a congregação. 

Apesar da negação de alguns pastores com mandato eletivo, são corriqueiras as campanhas políticas dentro de igrejas, com realização de verdadeiros comícios em época de eleição. Pedir votos e até mesmo coagir as pessoas é prática comum e conhecida por qualquer um que frequente templos religiosos em período eleitoral. Apesar de ser um claro abuso, não se trata de um crime, já que não está tipificado na legislação. É isso que pode estar prestes a mudar.

Seria uma novidade relevante. Com a Lei da Ficha Limpa surgiram as figuras do abuso do poder econômico e do abuso do poder político como crimes que podem resultar na inelegibilidade do candidato. No primeiro, o candidato ou partido aplica recursos financeiros na campanha de forma desproporcional, desequilibrando o pleito e comprometendo sua legitimidade. No segundo, o detentor do poder político vale-se de sua posição para influenciar o eleitor. 

Esta última tem mais semelhança com o que ocorre nas igrejas e tal similaridade tem sido usada como argumento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando se discute sua tipificação como crime. 

O líder religioso, seja qual for sua orientação de fé, não pode perder de vista a responsabilidade que tem junto aos fiéis, que devem ser tratados com máximo respeito, jamais como  curral eleitoral. Felizmente, muitos pastores têm se posicionado contra essa prática, opondo-se àqueles que, além de explorar financeiramente  a fé alheia, também a usa como moeda no jogo eleitoral. Vários exemplos não faltam aqui mesmo em Manaus. A tipificação penal do abuso de poder religioso seria muito bem-vinda como forma de identificar e punir os que se aproveitam da fé das pessoas.