Falta de transparência nos números de empregos no País
Em março de 2020, o Ministério da Economia suspendeu a divulgação dos dados do Caged – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados -, principal estatística de contratações e demissões de trabalhadores. Na época, início da pandemia de covid-19 no Brasil, a justificativa do governo foi de que empresas não estavam enviando os dados, o que poderia gerar resultados distorcidos. Curiosamente, agora, o ministério admite que uma distorção gigantesca de fato aconteceu ao longo de todo o ano de 2020. Em vez da criação de 142.690 postos de trabalho, o número foi revisado para 75.883, um recuo de quase 50% em relação à informação inicialmente divulgada. A discrepância é atribuída a informações tardias das empresas, algo prontamente refutado por especialistas, alimentando até mesmo a suspeita de um mascaramento intencional.
O detalhamento dos dados revisados por Estado ainda não foi divulgado. Até então, o Amazonas tinha encerrado 2020 com saldo de 10.250 empregos com carteira assinada, mesmo sendo um dos mais afetados pela pandemia. Era difícil crer nos números, principalmente porque a realidade das ruas mostrava um cenário completamente diferente. Agora sabemos o porquê. Revisões e mesmo equívocos acontecem na manipulação de números que refletem uma realidade tão dinâmica como o mercado de trabalho. Mas erros grosseiros como o ocorrido no Ministério da Economia colocam em xeque os demais dados divulgados pelo governo.
Cabe ressaltar que a estratégia de esconder dados não é uma prática nova no âmbito federal. O físico Ricardo Galvão foi demitido da presidência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) depois que a instituição divulgou informações sobre o desmatamento recorde na Amazônia em 2019. Além disso, diante da intenção do Ministério da Saúde de divulgar apenas parcialmente os dados relativos à covid no País, foi preciso que um consórcio de veículos de imprensa se emprenhasse nessa tarefa.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego atinge 13,7% da população, o que significa mais de 14 milhões de pessoas. Isso sem falar no avanço do subemprego, da precarização do trabalho. É uma realidade dura que precisa ser enfrentada em vez de mascarada. Esconder o problema não é solução para nada.