Fim da inércia contra o sarampo
Antes tarde do que nunca, a epidemia de sarampo parece finalmente ter despertado a atenção do governo federal. As autoridades perceberam que não se trata mais de um problema exclusivo do Amazonas ou da região Norte. Se não for contido, o sarampo pode, sim, se espalhar para as demais regiões casando consequências imprevisíveis. Com o sinal amarelo ligado, o Exército está nas ruas de Manaus ampliando a cobertura vacinal. O mesmo deve ocorrer em municípios mais próximos da capital.
Um dos fatores que contribuíram para o cenário atual foi o próprio descaso com os migrantes. O poder público percebeu muito tardiamente que se tratava de uma questão que não poderia ser ignorada sem graves consequências. Que não basta abrigo e alimentos, a saúde dos migrantes precisava ser uma tratada como questão estratégica. Como isso não foi levado em conta, uma doença dada como extinta no País, saiu dos livros de história e voltou a assombrar a população. E está assombrando bastante agora que a doença saiu de Manaus e já causa preocupação em Manacapuru.
O município da região metropolitana vive um surto de sarampo, revelando que os esforços feitos até agora foram insuficientes para conter o avanço da doença. É a prova inequívoca que a estratégia de enfrentamento adotada até agora – se é que havia alguma – precisa ser revista e aprimorada. E mais que isso, é a demonstração de que o sarampo já é uma epidemia que precisa ser combatida de forma inteligente e com planejamento – algo que não aconteceu até agora – para evitar que o problema se espalhe para o restante do País.
Também é pesaroso notar que o governo só perceba a gravidade do problema diante do risco aos estados do Sudeste e Sul do País. Um governo que se prepara para apagar as luzes, que sobreviveu aos trancos e barrancos e que enfrenta uma das maiores impopularidades da história fecharia a gestão com uma chave de ouro invertida se encerrasse o ano com uma epidemia de sarampo avançando no Brasil. É exatamente esse risco que estamos correndo.
Independentemente das motivações governamentais, essa percepção nos permite acreditar que, agora sim, a ameaça que o sarampo representa terá o tratamento necessário e adequado. É uma pena que tantas pessoas, muitas crianças no Amazonas, tenham sofrido para que a inércia chegasse ao fim.