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A Crítica
Opinião

Flagelo sem fim dos indígenas

Proteger os povos indígenas remanescentes é uma obrigação de todos: governos em todas as suas esferas e sociedade como um todo.

Publicado em 15/04/2022 às 09h44
Flagelo sem fim dos indígenas
Foto: Sérgio Lima / AFP

Já passou da hora da sociedade brasileira admitir o débito impagável que temos com as populações indígenas remanescentes à invasão europeia iniciada no século XVI.

Apesar dos escassos registros dos primeiros anos das incursões portuguesas e espanholas – para não mencionar os franceses, ingleses e holandeses – é consenso entre os estudiosos que alguns milhões de indígenas habitavam a Amazônia de então. Os relatos dos primeiros exploradores do rio Amazonas – notadamente Francisco Orellana e Aguirre – sugerem que as margens do grande rio eram densamente povoadas há cinco séculos.

Curiosamente, expedições posteriores, apenas algumas décadas depois, não verificaram tamanha densidade demográfica. Os indícios sugerem que o mero primeiro contato com os europeus teve efeito imediato e devastador nas populações originárias, principalmente por causa de doenças como gripe, sarampo e tuberculose, que dizimaram milhares de índios, reduzindo drasticamente a população amazônica da época. 

De lá para cá, nos séculos que se seguiram, o flagelo continuou. Houve todo tipo de abuso em relação aos índios. É preciso que se diga: a cristianização forçada foi, e ainda é, uma forma de violência. Além dela, houve escravização, expropriação de terras, assassinatos, genocídio… Um processo que continua nos dias de hoje. 

O Brasil ainda tem o privilégio de abrigar em seu território povos indígenas ainda sem qualquer contato com a chamada “civilização”. Infelizmente, é verdade que tais grupos se tornam mais raros a cada dia, num processo de destruição sociocultural que se intensificou nos últimos anos no País.

Proteger os povos indígenas remanescentes é uma obrigação de todos: governos em todas as suas esferas e sociedade como um todo. Não se trata de posicionar redomas imaginárias sobre esses povos, mas de vê-los como pessoas que têm o direito de viver conforme a cultura e modo de vida herdados de seus ancestrais. Lamentavelmente, o cenário que se vê hoje no País, sobretudo na Amazônia, é o mais terrível possível.

Neste momento, há garimpeiros, posseiros e outros invasores explorando terras indígenas, estuprando crianças, espalhando doenças e destruindo a natureza. A resposta do País precisa ser firme e urgente, mas a inércia que se vê deixa claro que o combate de tais ilícitos não é uma prioridade. Já se passaram mais de cinco séculos. O flagelo dos indígenas tem que parar.