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A Crítica
Opinião

Geopolítica das vacinas

Publicado em 04/06/2021 às 12h04 · Atualizado em 13/03/2022 às 19h39
Geopolítica das vacinas

A atitude do governo de Joe Biden em distribuir 80 milhões de vacinas a países menos abastados, entre eles o Brasil, é um exemplo eloquente do quanto a atual gestão nos Estados Unidos se diferencia da anterior. Nações da América Latina, África e Ásia devem se beneficiar da entrega dos imunizantes. Com isso, Biden demonstra perceber um fato aparentemente ainda não notado por grande parte da Europa: a covid-19 é um desafio mundial, não adianta controlar a doença em um país se as demais nações permanecerem em situação de vulnerabilidade.

De fato, as 80 milhões de doses que serão disponibilizadas pelo governo norte-americano ao consórcio Covax Facility ou doadas diretamente, não chegarão nem perto de resolver a demanda mundial por vacinas, mas são um grande exemplo para as demais nações, além de cumprir papel de relevo na geopolítica mundial, conferindo certo protagonismo aos Estados Unidos, que ainda convivem com a imagem de truculência cultivada nos anos da gestão Trump. O recado é simples: a estratégia do “cada um por si” não terá sucesso contra a pandemia.

Vale ressaltar que os Estados Unidos tomam essa atitude não apenas porque são uma nação rica, ou visando destaque geopolítico, mas porque o governo não hesitou quanto teve a oportunidade de comprar vacinas, apesar do comportamento errático do ex-presidente. A compra antecipada de vacinas permitiu que, agora, mais da metade de todos os adultos dos Estados Unidos estejam vacinados, e a pandemia por lá esteja plenamente sob controle. Como vem sendo demonstrado no experimento conduzido no município paulista de Serrana, a vacinação pode, sim, transformar a covid-19 em uma gripezinha.

Ao que tudo indica, o governo brasileiro, apesar da relutância inicial, já se deu conta disso. Na quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro anunciou em rede nacional vacinas para todos os brasileiros nos próximos seis meses. É difícil crer, principalmente considerando que de janeiro a maio, apenas 10% da população já tomou duas doses de algum dos imunizantes disponíveis, e as dificuldades para produção local permanecem as mesmas. As vacinas doadas por Biden vão ajudar, mas o governo terá que construir uma estratégia consistente para aquisição de imunizantes, algo que não foi feito até agora.