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A Crítica
Opinião

Gols, gargalhadas e redenção

Quando dois atores de comédia decidiram comprar um time da quinta divisão

Publicado em 26/10/2025 às 17h12
Gols, gargalhadas e redenção
Foto: Divulgação/Disney

Há alguns meses, estava zapeando entre streamings, à procura de algo novo ou simplesmente de uma série antiga e reconfortante para rever. Sem perceber, acabei parando na aba de esportes e encontrei um título curioso: Bem-Vindos ao Wrexham. Uma série documental sobre dois atores de comédia que compram um time de futebol. Inusitado, não é mesmo? A primeira reação foi de ceticismo — mais um desses projetos de celebridade tentando bancar o filantropo moderno. Mas bastaram alguns episódios para perceber que havia algo ali que transcendia a piada inicial. Não era só uma história de futebol. Era, na verdade, uma história sobre pertencimento.

Rob McElhenney, conhecido pela série It’s Always Sunny in Philadelphia, e Ryan Reynolds, o eterno Deadpool, decidiram unir forças para adquirir o Wrexham AFC, um clube galês de mais de 150 anos, atolado em dívidas e afundado na quinta divisão do futebol inglês. A ideia, à primeira vista, soa como o roteiro de uma comédia absurda: dois milionários de Hollywood que não entendem nada de futebol tentando salvar um time quase esquecido. Mas é justamente nesse absurdo que mora a beleza da coisa. Porque a realidade, às vezes, tem mais graça — e mais drama — do que qualquer ficção.

O mais interessante é observar como a série constrói essa jornada de fora para dentro. No início, há um evidente estranhamento entre os novos donos e a comunidade local. Rob e Ryan chegam com boas intenções, mas também com câmeras, drones e roteiristas. E, ainda assim, à medida que as temporadas avançam, a presença deles começa a se confundir com a própria vida da cidade. Wrexham, que antes era apenas um ponto esquecido no mapa do País de Gales, ganha novamente sua voz, sua autoestima, seu brilho. O time passa a ser um símbolo — não de uma jogada de marketing, mas de um renascimento coletivo.

O lema “é mais que futebol” nunca pareceu tão verdadeiro. Porque, no fundo, não estamos falando apenas de vitórias em campo, mas de esperança. Em O Segredo dos Seus Olhos, há uma frase que resume perfeitamente esse sentimento: “As pessoas podem mudar tudo, de cara, de casa, de família, de namorada, religião, de Deus. Mas tem uma coisa que não se pode mudar, Benjamin. Não se pode mudar de paixão.” O povo de Wrexham jamais mudou de paixão. Eles ficaram ali, firmes, mesmo quando o time perdeu, mesmo quando o estádio parecia ruir, mesmo quando ninguém mais olhava para eles. O que Rob e Ryan fizeram foi apenas reacender uma chama que nunca deixou de existir.


Série redefiniu o clube galês e reascendeu a paixão dos fãs (Foto: Divulgação) ()

E o documentário, em sua estrutura, não se contenta em ser mero registro esportivo. É também um retrato sobre a vulnerabilidade de quem tenta se conectar com algo maior que si. Rob e Ryan, dois homens bem-sucedidos, descobrem que dinheiro e fama não bastam para comprar pertencimento. Para fazer parte de uma comunidade, é preciso sentir — e, principalmente, se deixar afetar. Eles choram com as derrotas, vibram com os gols e, aos poucos, se tornam tão torcedores quanto qualquer morador da cidade. Essa é a mágica do futebol: ele transforma estranhos em irmãos.

Há, claro, desafios e contradições. Afinal, o Wrexham também virou uma marca, um produto rentável. O sucesso da série impulsionou vendas, turismo e patrocinadores. É o capitalismo jogando bonito. Mas, curiosamente, o lucro parece ser apenas um subproduto de algo mais genuíno. Porque, se o projeto começou como um experimento curioso de dois atores entediados, ele se tornou um fenômeno que devolveu dignidade a uma cidade inteira. É raro ver um negócio dar tão certo justamente por não ter começado com a lógica de um negócio.

E é impossível não se encantar com o modo como o documentário equilibra humor e emoção. Ryan Reynolds continua com seu sarcasmo afiado, Rob com sua ingenuidade encantadora, mas há momentos em que o riso dá lugar ao silêncio, ao choro contido nas arquibancadas, à sensação de que todos estão jogando o mesmo jogo — o da vida. Cada episódio é uma lembrança de que o futebol, assim como a arte, é uma forma de contar histórias. E, no caso de Wrexham, é a história de um povo que se recusa a desistir.

Com o passar das temporadas, o improvável começa a acontecer. O time vence. As arquibancadas lotam. O estádio Racecourse Ground, o mais antigo do mundo ainda em uso, volta a respirar glória. E, de repente, aquele sonho meio cômico de dois atores americanos se transforma em algo quase mítico: uma fábula moderna sobre fé, persistência e pertencimento. É o tipo de coisa que nos faz acreditar, por um breve instante, que o mundo ainda pode ser consertado — nem que seja um pouquinho de cada vez, gol a gol.


Ao longo das temporadas, série mostra os desafios cada vez maiores que o Wrexham precisa encarar (Foto: Divulgação) ()

Talvez Bem-Vindos ao Wrexham não seja uma série sobre futebol. Talvez seja sobre humanidade. Sobre o desejo de fazer parte, de construir algo que sobreviva a nós. Porque, no fim das contas, o que move Rob, Ryan, os torcedores e até quem assiste de longe é o mesmo impulso que move qualquer paixão verdadeira: a necessidade de acreditar que, mesmo nas divisões mais baixas da vida, ainda é possível sonhar com a primeira divisão.

E a história continua. O Wrexham segue em campo, tentando subir mais um degrau. Rob e Ryan seguem aprendendo o que nenhum roteiro de Hollywood ensinou: que o futebol, assim como a vida, não se escreve com finais fechados, mas com a esperança de um próximo jogo. Talvez seja por isso que seguimos assistindo — porque, no fundo, todo torcedor, de Wrexham ou de qualquer esquina do mundo, vive à espera do próximo gol.