Indígenas precisam ser ouvidos
A comunidade científica local não tem dúvidas: a eventual exploração de minérios em terras indígenas pode impactar negativamente, e de forma irreversível, a biodiversidade Amazônica. O tema, que foi discutido durante o debate “Mineração na Amazônia – Desafios e Possibilidades”, realizado no auditório do Bosque da Ciência, levantou possíveis consequências aos ecossistemas amazônicos com base no que já aconteceu em experiências semelhantes no passado.
Em um mundo perfeito, a exploração de riquezas minerais seria feita, inclusive em terras indígenas, mediante autorização dos índios e com a participação destes, de forma controlada pelo governo e acompanhada por entidades da sociedade civil, por empresas comprometidas com o desenvolvimento sustentável e socialmente responsáveis, com pleno respeito à cultura e às tradições dos povos envolvidos. Mas isso seria em um mundo utópico muito longe da realidade.
Da forma que está posta, a comunidade científica tem sólidos motivos para temer a liberação da atividade mineral, não apenas em áreas indígenas, mas em toda a Amazônia preservada. Basta ver o que ocorreu no Estado do Pará, onde vastas áreas de floresta foram degradadas após décadas de exploração intensa e desordenada. Jamais saberemos que espécies foram perdidas, que doenças poderiam ser tratadas por plantas que só havia nas áreas de floresta hoje destruídas. Isso sem falar no impacto social que mostra seus efeitos até hoje. O Amazonas, que ainda conta com mais de 90% de sua cobertura florestal preservada é o Estado que mais tem a perder se o projeto de lei proposto pelo governo federal for aprovado.
Sobre um tema tão delicado, é indispensável ouvir os povos indígenas, que serão os principais afetados pela atividade, o que não foi feito até agora pelo Planalto. Vale ressaltar que ouvir os índios significa reconhecer sua ampla diversidade e usar os meios adequados para colher tais opiniões. Limitar a oitiva a indígenas aculturados que alimentam interesses políticos não é um caminho válido. O que se espera daqui para frente é um debate aberto e democrático, para evitar medidas que possam prejudica ainda mais os remanescentes daqueles que já estavam por aqui muito antes da chegada de Cabral.
*Foto: Izaías Godinho