Iter de Teresa D’Avila, a padroeira de Tefé
Por: Prof. Dr. Adalberto da Silva Retto Jr
Se algum historiador mencionasse uma batalha, um armistício, um cataclismo ou um evento ocorrido entre 5 e 14 de outubro do ano de 1582, ele estaria falando de dias que nunca existiram. Ou de dias, como aqueles que vivemos atualmente, em que “um presente imóvel desceu sobre o mundo acometido pela Covid-19, aniquilando o horizonte histórico e, com ele, promovendo um verdadeiro eclipse do tempo” (RETTO JR, Le Monde: 2021).
O salto cronológico de dez dias, que levou diretamente ao dia 15 do décimo mês e que, hoje, festejamos como o dia de Santa Teresa D’Ávila, padroeira da cidade de Tefé – Am, fora cancelado pela bula papal Inter gravissimas, promulgada pelo Papa Gregório XIII, e conhecida como a "Reforma do Calendário Gregoriano".
É nesse hiato temporal, em Alba de Tormes, em Salamanca, na Espanha, que a fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças diz:
Meu Senhor, é hora de seguir adiante. Pois bem, que seja feita Tua vontade.
Ó meu Senhor e meu Esposo, a hora que tanto esperei chegou.
É hora de nos encontrarmos!.
Mas essa ampla reforma que, de algum modo, envolveu e afetou o mundo inteiro também visou reafirmar a autoridade papal, a qual vinha sofrendo golpes severos. Tal reforma viria também explicitar as acaloradas disputas entre teologia e ciência. Guardadas as devidas proporções, essas discussões permeiam, em tempos atuais, os debates dos terraplanistas.
A figura de Teresa, santificada em 12 de março de 1622, proclamada Doutora da Igreja em 1970 e ainda declarada protetora dos professores, portanto, daqueles que constroem conhecimentos, viria explicitar e consubstanciar tal paradoxo. Sua vida, suas obras e seus escritos – que foram suficientes para arrastá-la aos tribunais da Inquisição – colocam-na como a professora espiritual incansável e paciente, intermediária de uma humanidade que espera ser libertada das inquietações e do sofrimento, ou que aspira a uma maior perfeição cristã.
Nos séculos de desenvolvimento da civilização, uma distinção clara foi criada entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Há, portanto, uma separação definitiva dos dois mundos, cisão essa que, sendo acima de tudo cultural, também se traduz no aspecto estrutural do lugar. No relato autobiográfico de Teresa emerge o amor exclusivo a Deus, como se a vida não tivesse mais fronteira nítida com a realidade, como se essa indistinção estabelecesse uma nova relação entre os humanos e o divino. No fenômeno místico da transverberação, representado na famosa escultura do artista italiano Gian Lorenzo Bernini (Nápoles, 7 de dezembro de 1598 – Roma, 28 de novembro de 1680), na igreja de Santa Maria da Vitória em Roma, Santa Teresa d'Ávila é representada em êxtase, plenamente satisfeita com o amor de Deus.
Nas atuais condições, então, poderíamos nos perguntar: O que uma mulher poderia nos ensinar com seu testemunho de vida, considerando que, naquele período histórico, a mulher não tinha acesso à educação, além de ser-lhe negada qualquer forma de autonomia, uma vez que o trabalho da mulher visava à formação do dote, elemento fundamental para a contratação do casamento?
No mundo atual em que a condição das mulheres ainda está ligada a violências, submissões e sexualização de todo tipo, os ensinamentos de Teresa d'Ávila são mais que urgentes. O iter de Teresa autora, narradora e protagonista da história, é ao mesmo tempo biografia, autobiografia, ensaio, e ficção. No final, na chave de uma paráfrase atualizada, traduzida em termos psicanalíticos da própria vida, um verdadeiro monumento de aventura no seio da fé.
Portanto, o culto aos santos atualmente não é mais a veneração de antigas divindades pagãs. Os santos podem ser companheiros da existência humana, testemunhando a existência da liberdade de ação que favoreça valores como justiça, misericórdia e solidariedade entre os semelhantes. Um alimento para o pensamento, o que demonstra a tenacidade dos seres humanos para encontrar espaços onde possam garantir a presença de uma figura humana e misericordiosa, que bem poderia ser sua companheira de viagem.
Dedico este texto à minha mãe, que não se afastou da companhia de Teresa em sua viagem final. Ele foi escrito a partir da solicitação do amigo Bryan Boanerges.
Sobre o autor: Tefeense, filho de Adalberto da Silva Retto e Maria Marlene P. Roberto Retto. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP – Bauru, com doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e no Departamento de História do Istituto Universitario di Architettura di Venezia – IT. Professor visitante da Universidade Sorbonne- Paris I, no programa Erasmus Mundus.