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A Crítica
Opinião

Justiça tortuosa

As palavras da magistrada são afiadas ao reconhecer as mazelas de nossa justiça, às vezes torta, mas otimistas ao afirmar que, ainda que atrasada, ela sempre chega

Publicado em 01/11/2024 às 09h10
Justiça tortuosa
Foto: AFP

A juíza Lúcia Glioche, na leitura da sentença que condenou os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes, resumiu com propriedade alguns aspectos da Justiça brasileira que, segundo ela, “por vezes é lenta, é cega, é burra, é injusta, é errada, é torta, mas ela chega”. Chega até mesmo para os que acreditam que jamais serão atingidos por ela. O histórico julgamento, finalizado ontem, é parte do desfecho de um dos casos de maior repercussão dos últimos anos, culminando com a condenação dos executores dos assassinatos da vereadora e do motorista. 

As palavras da magistrada são afiadas ao reconhecer as mazelas de nossa justiça, às vezes torta, mas otimistas ao afirmar que, ainda que atrasada, ela sempre chega. No entanto, é preciso buscar outras fontes para alimentar o otimismo e acreditar que a justiça – aqui compreendida como o produto da atuação do nosso sistema judiciário e penal -, de fato, sempre chega. Abstraindo qualquer conotação religiosa relacionada à chamada justiça divina que, para aqueles que nela creem, nunca falha, é difícil acreditar na plena veracidade das palavras da juíza Lúcia Glioche. 

É fato que a condenação dos assassinos de Marielle e Anderson foi favorecida pela grande repercussão do caso e pela remoção de certas barreiras que atrasavam o andamento das investigações. Evidente que isso não ofusca a importância e até mesmo o simbolismo presentes na condenação dos algozes da vereadora e do motorista. É sinal de que a justiça, por vezes, realmente funciona. Mas o ideal é que ela também chegue para as vítimas de balas perdidas nos confrontos entre policiais e criminosos ou entre facções rivais; para os familiares de quem perdeu a vida por causa de um motorista embriagado e para todas as vítimas anônimas de crimes com pouca ou nenhuma repercussão.

Voltando ao caso Marielle, vale ressaltar que apenas os assassinos foram condenados. Os mandantes serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal por conta da prerrogativa de foro. O exemplo usado pela juíza Glioche em sua afirmação só estará pleno quando, e se, os mandantes do crime forem condenados. 

Mas é inegável que um grande passo foi dado, e parece que, pelo menos desta vez, a justiça prevalecerá.