Manaus sáb, 17 out
A Crítica
Opinião

Matéria prima das heroínas

Publicado em 09/08/2016 às 18h54 · Atualizado em 13/03/2022 às 23h27
Matéria prima das heroínas

Os Jogos Olímpicos, estes da era moderna criados pelo Barão de Coubertien, são cheios de histórias belíssimas para todos os gostos, com dramas, tragédias e alegrias se misturando a sorrisos, lágrimas e espantos generalizados.

 Há, por exemplo, histórias de excelência esportiva que vemos nas trajetórias de Mark Spitz (sete medalhas de ouro em sete provas em Munique-72), Carl Lewis com suas quatro medalhas de ouro em Los Angeles-84 e assim repetindo o feito de Jesse Owens diante do Fuher em Berlin-32.

Há também histórias de derrotas que fizeram o derrotado maior que o vencedor, como no caso de Gabrielle Andersen, a maratonista suiça que ao entrar no estádio Olímpico de Los Angeles cambaleante e desidratada fez desaparecer o brilho de ouro da medalha de Joan Benoit. O mesmo ocorreu na trajetória olímpica do nadador guinéu-equatoriano

Eric Moussambani Malonga em Sydney-2000, quando nadou os 100 metros livre como se tivesse aprendido a nadar na véspera e fez o tempo mais longo já registrado para a prova:  um minuto e cinquenta e dois segundos. O ouro de  Pieter van den Hoogenband veio em  47 segundos e 84 centésimos.

Há também exotismos, como o do maratonista Abebe Bekila, que corria descalço e dos corredores Tommie Smith, ouro nos 200 metros rasos na Cidade dos México-68, e de seu colega John Carlos, bronze na mesma prova, e que  logo após receberem as medalhas levantaram os braços com os punhos fechados, o símbolo do movimento Panteras Negras, que lutava por direitos civis iguais entre negros e brancos nos Estados Unidos.

Mas nada se compara, do ponto de vista simbólico para nós brasileiros, com a história de Rafaela Silva, que ontem conquistou a primeira medalha de ouro para o Brasil na Rio 2016. Negra, como os Panteras, pobre como Bekila, de trajetória improvável como  Moussambani, e de excelência acima de todos, como Owens, Lewis e Spitz, ela superou a infância pobre na favela Cidade de Deus, cuja degradação social foi retratada no magistral filme de Fernando Meirelles, superou o preconceito ao ser eliminada em Londres-2012 por ter aplicado um golpe proibido, e finalmente atingiu a glória olímpica numa edição dos jogos que acontece na cidade natal dela e num ginásio que fica a poucos quarteirões da favela em cujos becos começou a lutar judô num projeto social.

Foto: Francisco Medeiros/ ME