Não basta apenas dinheiro
Os garimpeiros ilegais já demonstraram ter organização, resiliência, paciência e patrocínio para resistir às investidas das forças oficiais.
A liberação de mais de R$ 1 bilhão em crédito extraordinário para ações de combate ao garimpo ilegal na terra indígena Yanomami, em Roraima, mostra a disposição do governo em manter-se empenhado no enfrentamento da crise humanitária. Porém, algumas questões surgem de imediato. A primeira delas diz respeito à absoluta e indispensável transparência que deve permear toda a aplicação dos recursos, ainda mais considerando que os valores serão distribuídos por diversas pastas para atuação em várias frentes.
Os garimpeiros ilegais já demonstraram ter organização, resiliência, paciência e patrocínio para resistir às investidas das forças oficiais. Eles aproveitaram bem o longo período de inação governamental para fortalecer a atividade irregular e os grupos envolvidos estão dispostos a lutar para não abrir mão dos elevados lucros.
Após um ano da ofensiva contra o garimpo na terra Yanomami, houve avanços, mas a situação ainda é bastante delicada. A saúde dos indígenas segue preocupante: no ano passado, mais de 360 morreram, muitos por desnutrição. Será preciso muito tempo para que se cure o dano causado na cultura Yanomami, povo que há poucas décadas estava entre os únicos ainda protegidos do contato com os não-índios. Falhamos em protegê-los e estamos falhando novamente. No novo esforço, dessa vez bilionário, o essencial é que o investimento se reflita em melhor qualidade de vida para os indígenas, em preservação da cultura e na possibilidade de viver em paz e segurança em suas próprias terras.
Não se combate o garimpo ilegal sem dinheiro, principalmente na Amazônia. Mas o mero despejo de dinheiro, sem a implementação de uma estratégia clara e eficiente, deve apenas escancarar as portas para a corrupção. Além disso, a eficácia das ações também depende da colaboração do governo de Roraima e das prefeituras envolvidas. As preferências ideológicas devem ser postas de lado, o que, por si só, já seria um enorme passo. Esse plano ainda não foi devidamente detalhado pelo governo, mas a instalação de uma “Casa de Governo” em Roraima mostra que parte da estratégia consiste em fortalecer a presença do Estado. Aguardemos.