Naquela Mesa
Artigo de José Alberto Simonetti, presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, em homenagem ao Advogado Alberto Simonetti Cabral Filho
Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.
Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.
[…]
São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.
Moras dentro,
sem deus nem adeus.
(Mia Couto)
A memória de um dos maiores líderes da advocacia ficou eternizada na sede do Tribunal Superior do Trabalho. O nome de Alberto Simonetti Cabral Filho (1946-2008), que foi um grande advogado amazonense e líder nacional, terá seu nome registrado na Sala da Advocacia do TST, em Brasília.
O Ministro-Presidente Emmanoel Pereira, proponente da homenagem, garantiu à advocacia um dia de emoção e uma eternidade de lembranças. Desde que assumi a Presidência da OAB no início do ano, tem sido assim: uma emoção atrás da outra. Lutar pela advocacia é batalhar pela esperança! A cada prerrogativa conquistada, ganhamos mais força, mais brilho e mais pulsão de vida.
A “Sala dos Advogados Alberto Simonetti Filho” no Tribunal da Justiça Social é uma homenagem à história da Ordem dos Advogados do Brasil. E ao meu pai. Com Alberto Simonetti, aprendi que o coração é a maior fonte da sabedoria humana – e que vem dela a tradição mais universal que podemos experienciar. Para ele, razão e emoção eram irmãs siamesas: não existe racionalidade sem amparo de um coração pulsante. Escrever com emoção é exercitar uma de suas lições, que é amar e viver intensamente.
Os versos de “Naquela Mesa”, de Nelson Gonçalves, me inspiraram na elaboração desse testemunho. A música é uma homenagem aos pais que nos deixaram, cujas lembranças são relíquias. Como canta Nelson, foi naquela mesa, onde ele elaborava suas teses e peças geniais, que conheci um dos maiores advogados dos nossos tempos.
Naquela mesa, ele sentava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor. Naquela mesa, ele também contava histórias. Alberto Simonetti Filho era um exímio contador de histórias. Sempre falava do orgulho que sentiu quando, no início de sua carreira, defendeu uma mãe acusada injustamente de infanticídio em uma cidade do interior. A pobre mulher havia sido massacrada pela população local. Designado defensor dativo, ele provou que a criança havia falecido de uma enfermidade. Ele sempre repetia essa história como quem dissesse: “vocês precisam estar do lado da Justiça, sempre!”
Naquela mesa, ele juntava gente e contava sobre sua trajetória – que lembra as palavras de Manoel de Barros: “Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão – Antes que das coisas celestiais.”
Era um amante das miudezas da vida. Gostava de contar sobre sua infância dura, de origem muito humilde. Sua grandeza maior vinha de seus sonhos, que eram gigantes e permeados de coletividades. Seus êxitos provinham dos valores firmes que aprendera em casa, e sempre dizia: “não há sucesso na advocacia se não for pelo caminho da ética”.
O grande Alberto Simonetti era – no coração de seus familiares – apenas “Albertinho”. Era o apelido que a família deu ao menino que nunca cresceu. E também foi naquela mesa – em sua mesa de advogado, de grande líder – que ele contava contente o que fez de manhã. Eu posso afirmar: em seus olhos, era tanto brilho, que, mais que seu filho, eu fiquei seu fã!
Fiquei fã do pai, do advogado e do grande humanista que ele foi. Fundou o primeiro escritório de Advocacia do Estado do Amazonas. Líder nato, presidiu, por quatro vezes, a Seccional Amazonense da OAB.
Em seus mandatos na OAB/AM, as obras foram faraônicas. Deixou pelo menos quatro obras de grande envergadura: a sede social e o clube de campo da OAB, que também leva o seu nome; o prédio da Escola de Advocacia; e o estacionamento para os advogados, nas proximidades do fórum.
Ao inaugurar a sede da Sala Advocacia com seu nome, o TST protege a memória e a beleza da trajetória de um advogado grandioso. Guarda o nome de um grande humanista e a insígnia de um sonhador. E a vida pertence aos sonhadores!
A partir da “Sala dos Advogados Alberto Simonetti Cabral Filho”, a Justiça do Trabalho será transformada por dentro! Meu pai, ao longo de décadas dedicadas à luta da classe, dedicou-se firmemente às pautas da advocacia trabalhista. Embora não fosse essa sua área de atuação profissional, a vocação militante pelos advogados trabalhistas o consagrou como o “grande pai da advocacia trabalhista”.
Guimarães Rosa dizia que as pessoas não morrem, ficam encantadas. Meu grande herói – o líder amazonense Alberto Simonetti Filho – na Sala da Advocacia do TST, reviveu e, novamente, nos encantou. A Advocacia brasileira está encantada com a homenagem.