Natal da esperança
Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas
Começa dezembro. As principais ruas e avenidas das grandes cidades recebem enfeites luminosos que preparam a festa pelo nascimento do Menino mas que também têm por objetivo estimular o crescimento da atividade comercial, porque é tempo de dar e de receber presentes. As casas são igualmente enfeitadas com luzes que piscam intermitentes ao longo das noites, como a anunciar que também há festa no coração dos que ali habitam. Crianças, as que podem, são incentivadas a escrever cartinhas para um Papai que só aparece uma vez a cada ano, na véspera do dia consagrado ao Natal de Jesus e que realiza, em magia de pura e profunda beleza, sonhos pueris que muitas vezes perduram na lembrança por toda a vida. Árvores de Natal são construídas com aprumo e arte e contribuem fortemente para o clima de regozijo por mais um aniversário da vinda à Terra do Filho de Deus.
Neste lado do mundo, criaram-se eventos que se foram tornando tradições, como a ceia em família, em alguns cantos regada a bom vinho, com frutas da estação, nozes, ameixas, passas, uvas verdes, em outros lugares cidra e um franguinho assado com farofa e arroz, em outros até somente um bolinho com café ou refrigerante, importando, em qualquer exemplo, no encontro e no reencontro de avós, pais, filhos, irmãos, muitos dos quais ao longo do ano nem dispõem de tempo para fazer visita igual. Nos lares, como nos locais de trabalho, costuma haver troca de presentes, com o que se convencionou denominar de Amigo Oculto, ou Amigo Secreto, quase sempre acompanhada de abraços, beijos e outros gestos de demonstração de amizade e de carinho. Às vezes, uma prece.
Nas igrejas, cultos de comemoração e de homenagem ao Rei, desde o Vaticano até a capela ou a orada mais humilde dos rincões distantes, com pastores e coros em louvação, sinos e bençãos que se distribuem em magia do alto dos púlpitos sobre fiéis contritos e, invariavelmente, emocionados pela beleza da paz. Ali há lugar para os que não têm a ceia, nem o presente, de amigo ou de Noel, nem mesmo a casa para enfeitar, eis que habitam as ruas e têm a calçada como berço e velhos jornais que diminuem o frio das madrugadas. Na hora do culto, qualquer que seja a seita, são iguais a todos os que estão em festa.
Em 2020 o Natal também será assim. Haverá luzes, festas, cultos, missas, bençãos e presentes, até, por certo, os do Bom Velhinho que se deve ter resguardado das ameaças e dos ataques à saúde com que se vem debatendo a Humanidade, em todos os quadrantes, desde janeiro. Tomara que o recolhimento a que costuma entregar-se ordinariamente durante o ano tenha sido bastante par mantê-lo capaz de realizar sonhos dos que nele creem. Os que continuam acreditando na necessidade de respeito às cautelas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde por certo evitarão as festas de Amigos e é possível que até as ceias não tenham a mesma frequência se grandes as famílias o bastante para provocar aglomerações. Muitos encontros dar-se-ão virtualmente, favorecidos pela tecnologia que permite a transmissão de voz e de imagem, aproximando as pessoas que, ainda assim, haverão de sentir e dividir a emoção da prece e o beijo do espírito.
Em muitos lares, haverá a tristeza e a dor da saudade de entes queridos, de quem nem se puderam despedir e cujos corpos sequer conseguiram velar, abatidos pelo vírus maldito de uma pandemia que mudou a forma de vida em todos os lugares, que alterou as relações de trabalho, que manteve e mantém recolhidos, assustados, sofridos os que, por idade ou por comorbidade constituem os chamados grupos de risco para a contaminação da enfermidade que não para de crescer, aqui e em todos os cantos do planeta.
Desde os primeiros meses do ano, a Humanidade inteira vem sofrendo com a doença desconhecida que grassou na Terra, com profissionais de saúde atônitos e mesmo assustados, dedicados até à exaustão em busca de minorar sofrimentos e dores, hospitais com lotação saturada, governos à procura de medidas hábeis a interromper ou a diminuir o ciclo de contágio e, ao redor do mundo, homens e mulheres da Ciência entregues, horas a fio, a estudos que possam conduzir ao enfrentamento eficiente e eficaz desse inimigo sorrateiro e covarde que tantas vidas já extinguiu.
Agora, depois que escolas voltaram a funcionar, que o comércio retomou horários tradicionais de atividade, que a indústria estava começando a recompor sua força produtiva, eis que nova onda de contaminação, aqui como na Europa e nos Estados Unidos, vem de obrigar autoridades a recuar em medidas de relaxamento de restrições, repetindo a tentativa de conter a voracidade de expansão do contágio maldito.
Mas o de 2020 será o NATAL DA ESPERANÇA. Desta feita é o aniversariante quem nos convoca para a festa e quem entrega o presente. À maneira da transformação da água em vinho ou da multiplicação dos peixes e dos pães, eis que Jesus vem de conceder ao Homem, do Oriente e do Ocidente, talvez a dádiva mais cara e desejada dos últimos meses: já se começa neste dezembro a aplicar o antídoto de que se necessita para preservar a saúde contra o vírus do mal. Temos vacina, quase em dezena, e com ela a esperança da vitória do Bem e da Vida.
Graças a Deus!