Nó ambiental
Poucos dias após a confirmação de que o acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia vai, finalmente, sair do papel após vinte anos de negociações, a divulgação dos dados mais recentes sobre desmatamento na Amazônia ressalta os temores manifestados por líderes europeus como o presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, a respeito da responsabilidade do governo brasileiro com a questão ambiental, um tema fundamental que os europeus, com razão, levam muito a sério.
Ocorre que dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o território da Amazônia Legal desmatado apenas no mês de junho chegou a 769 km². É o maior desmatamento registrado em junho desde 2016. Os dados ganham destaque após o compromisso do Brasil com a questão ambiental durante a reunião do G20, quando lideranças colocaram a preservação da Amazônia como condição para que o tratado UE-Mercosul seja ratificado.
Ressalte-se que o tratado, de modo geral bastante favorável ao Brasil, ainda precisa passar pelos parlamentos dos países dos dois blocos econômicos, ou seja, o debate ainda nem começou e a preservação da Amazônia certamente estará no centro das discussões.
Essa situação pode causar um curto-circuito no governo federal, que associa a proteção ambiental a uma agenda de esquerda e que, portanto, deve ser estirpada do País. As cabeças mais equilibradas do governo precisam encontrar formas de driblar a retórica do presidente – se isso for possível – e iniciar, o quanto antes, a elaboração de programas de atuação na linha ambiental, algo ainda inexistente após seis meses da nova gestão. Avanços nessa direção podem demorar um pouco, já que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ainda está às voltas com o escândalo dos laranjas do PSL e sua permanência no governo não está garantida.
De qualquer forma, ainda há tempo de não perder a oportunidade que se abre para o País. Oportunidade de mostrar ao mundo que é possível gerar riqueza e desenvolvimento mantendo, não só a Amazônia, mas todos os biomas brasileiros preservados. Mas, para isso, é preciso ter bom senso. O combate ao desmatamento ilegal precisa ser intensificado para que a devastação não aumente junto com a desconfiança internacional. E os programas de desenvolvimento sustentável precisam sair do papel.