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A Crítica
Opinião

O que é muito valioso, tem preço?

Vivemos na era da hiper conectividade. Se você não está on-line, você não existe. A internet é a rua mais movimentada da cidade, dizem, mas o que e quem vai estar exposto nessa rua?

Publicado em 27/09/2023 às 15h40
O que é muito valioso, tem preço?

*Por Luciana Nogueira Minev, psicóloga e CEO da Singulari Consultoria

Sou empresária há mais de uma década e nesse tempo empreendendo vi a forma de fazer negócios mudar bastante. Do anúncio do jornal ao post patrocinado da rede social. Do trabalho técnico e bem-feito à venda de uma imagem de prosperidade e sucesso. Teve uma hora em que resultados concretos começaram a perder espaço para “vidas perfeitas” de internet. Já não basta ser o melhor prestador de serviço, precisa compartilhar a intimidade familiar, os bens materiais, os restaurantes frequentados e as viagens pelo mundo. Será mesmo que esse é o único caminho?

Estamos no mês de setembro, um mês dedicado a alertar sobre problemas emocionais graves. O Brasil é o 2º país em número de casos de ansiedade e depressão no mundo. E é o primeiro com maior tempo de conexão nas redes sociais, de acordo com um levantamento mundial da National Privacy Test (NPT). Segundo a pesquisa, os brasileiros passam, em média, 53% de seu tempo de vida navegando na Internet. 

Como psicóloga entendo uma correlação profunda entre esses dados. Nos últimos anos, registramos o crescimento e relevância das redes sociais na vida dos indivíduos. A comparação ficou mais óbvia. A sensação de não ser o suficiente também. Sem contar a abertura dada a estranhos que se sentem no direito de opinar e comentar sobre sua vida. São íntimos desconhecidos que foram autorizados a acompanhar cada passo da sua jornada. 

Entendo que a prosperidade financeira é um objetivo de (quase) todo mundo e que a hiperexposição pode acelerar isso, mas a que custo? Quanto vale vender sua intimidade? Quanto vale expor suas relações mais preciosas?

Fico imaginando a pressão em cima dos filhos de casais que compartilham uma vida de comercial de margarina. Eles não podem falhar, precisam estar felizes e emocionalmente equilibrados. Afinal, tem gente olhando o tempo todo. 

Em tempos de gurus de fórmulas prontas (e mágicas), é preciso lembrar o óbvio: dá para fazer negócios sem tornar sua vida um reality show. Acredite! É um caminho mais longo e trabalhoso. Os resultados do seu trabalho precisam aparecer independente da marca do carro que você dirige ou do grau de felicidade que você decide expor. 

Vida pessoal e profissional se misturam, de fato, mas só até onde você permite. Cuidado com o efeito manada. Pense bem antes de aceitar esse como único caminho possível. Tudo na vida tem um preço. Quanto custa a sua privacidade? Quanto valem as suas relações mais íntimas? Monetizá-las gera receita no curto prazo, mas tem um preço. Você está disposto a pagá-lo?