O relatório da CPI e as disputas de poder
O cabo de guerra em torno do conteúdo do relatório final da CPI da Covid-19 é uma fotografia da ação política parlamentar no Brasil, e em diferentes países do mundo. Manifestações antagônicas estão sendo feitas tendo como pretexto o documento de investigação para, de fato, manejar interesses político-partidários neste momento e na exploração desses eleitoralmente.
A medição de força é espetacular e, para garantir determinadas defesas, cenas tragicômicas estão sendo exibidas. Homens de cabelos brancos e de cabelos pretos, em seus paletós impecáveis, discursam em defesa do que realmente querem defender. A sensação ao escutá-los é que falam de um outro Brasil e de um outro governo.
Não se trata do debate e da disputa de poder considerados normais no ambiente parlamentar que se pautará por ganhos de uns e perdas de outros. Deveria, numa realidade como a brasileira, ter um limite lógico, impossível, porque a lógica do modelo é vorazmente desumana: prevalecem interesses privados sobre os interesses coletivos.
É inadmissível aceitar que o Brasil alcançou mais de 600 mil mortes por Covid-19 e que no Amazonas mais de quatro dezenas de pessoas morreram por falta de oxigênio porque tinha que acontecer; que as autoridades públicas, responsáveis constitucionalmente pelos cuidados com as populações, os governados, não sejam responsabilizadas pela tragédia vivida pelos brasileiros; é um acinte que parlamentares da base de apoio ao presidente da República insistam em bradar que o Brasil é um exemplo positivo no combate a pandemia e que os dados (de hoje) são a prova disso.
A sociedade brasileira e, em particular, as vítimas diretas do negacionismo e da omissão governamental, aguarda que na versão final do relatório estejam impressas as dores e o sofrimento de mais de 600 mil famílias; dos que hoje estão sequelados e perambulam em busca de atendimento médico para obter tratamento, dos que têm pedidos de exames negados pelas operadoras de planos de saúde.
O conteúdo e o destino do relatório final da CPI da Covid-19 serão fundamentais para o Brasil estabeleça marcos administrativos que poderão inaugurar uma nova conduta por parte dos governantes, dos parlamentares e dos servidores públicos em geral. Parâmetros que norteavam a tomada de decisão no âmbito governamental foram quebrados e ignorados por meses seguidos enquanto o novo coronavirus avançava e vitimava milhares de pessoas, matava. Que o relatório final seja instrumento efetivo de correção de condutas de governos e base de punição dos responsáveis.