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A Crítica
Opinião

Os órfãos da Covid

Publicado em 17/08/2021 às 11h29 · Atualizado em 13/03/2022 às 19h14
Os órfãos da Covid

Por muito tempo os órfãos da Covid-19 têm sido ignorados, inclusive pelos meios de comunicação. A tragédia envolvendo seus pais e/ou responsáveis diretos, trazida pela pandemia do novo coronavírus e potencializada pela conduta atrapalhada do Poder Público ao combatê-la, acaba sendo a grande notícia e o motivo das reações dos órgãos governamentais. Em meio a essa história um número desconhecido de crianças, adolescentes e jovens passa à margem.

Segundo levantamento publicado na revista Lancet em julho, mais de 130 mil crianças brasileiras de até 17 anos ficaram órfãs por causa da Covid-19 até o final de abril deste ano. Colocado em proporção, o número corresponde a uma taxa de 2,4 órfãos para cada mil brasileiros menores de idade, a quarta maior entre 21 países incluídos no estudo. Praticamente nada sabe sobre eles. É um contingente que tem a sua vida completamente desestruturada quando desaparecem as únicas pessoas que lhes são provedoras. Como a maioria é de pobres e miseráveis, o quadro se torna muito mais grave. A mensagem é de que são pessoas que não contam. Hoje não há um serviço público, eficiente, que dê conta da atenção mínima a esses órfãos.

É a população, quando mobilizada, quem oferece socorros e abrigos improvisados. Esse segmento de pessoas, pela sua faixa etária e condição social necessita de atenção permanente que lhes permita superar os traumas e prosseguir as suas vidas dentro de padrões normais. Há urgência na adoção de medidas mais amplas e que se tornem de conhecimento público no que se refere a esse tema. As pessoas nele envolvidas têm na Constituição do País assegurados direitos especiais que não estão sendo observados. A fase da infância e da adolescência é um tempo de vida que exige a atenção responsável, mais ainda quando essas crianças e adolescentes estão em situação de abandono e de ameaça. Nesse momento, vários desses órfãos estão sendo vítimas de uma dupla violência.

Perderam o pai ou a mãe, a família se desmontou e o Estado não os incluiu em nenhum serviço de apoio, inclusive psicológico. É preciso que respostas eficientes sejam dadas e dentro de prazos mais curtos. É preciso oportunizar condições plenas para que sejam operacionalizados mecanismos de proteção a essas outras vítimas e se inicie uma etapa na qual a assistência se realize de fato e o desperdício de tantas vidas seja evitado.