Para romper o ciclo de impunidade
Segundo o relatório Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025, em 2024 foram registrados 1.450 feminicídios no Brasil.
Recente manifestação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, apontando como “estarrecedores” os episódios de violência de gênero no país, reacende a urgência de um debate nacional profundo. Ele destacou que mulheres e meninas vivem com medo. Medo de sair de casa e não voltar, de serem agredidas no trabalho ou no que era para ser o lugar mais seguro: o lar.
Esses medos têm fundamento em estatísticas recentes, que traduzem uma calamidade social. Segundo o relatório Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025, em 2024 foram registrados 1.450 feminicídios no Brasil. Além disso, ocorreram 2.485 homicídios dolosos e lesões corporais seguidas de morte contra mulheres – números que, somados, retratam o impacto brutal da violência letal de gênero. No mesmo ano, o país registrou 71.892 casos de estupro, o equivalente a cerca de 196 casos por dia. Ainda que esse dado represente uma leve queda (1,44%) em relação a 2023, a magnitude segue chocante.
A violência, no entanto, vai muito além de homicídios e crimes sexuais. Pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que cerca de 21,4 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de agressão nos últimos 12 meses, maior patamar desde o início da série histórica em 2017.
Esses números não são meras estatísticas: são histórias interrompidas, sonhos destruídos, famílias dilaceradas, futuro roubado. Por isso, não bastam alertas pontuais. É necessário um compromisso firme e permanente de Estado e sociedade para erradicar a violência de gênero.
É preciso fortalecer políticas públicas de prevenção e proteção. O Estado precisa ampliar e tornar mais acessíveis serviços como delegacias especializadas, centros de acolhimento, casas de abrigo, apoio psicológico e jurídico.
Também é necessário investir em educação e mudança cultural, da escola aos meios de comunicação, para desconstruir a cultura machista, a naturalização da violência, as justificativas de “ciúme” ou “discussão de casal”. É urgente fomentar uma cultura de respeito, igualdade, empatia e responsabilidade coletiva.
Precisamos, ainda, estimular e facilitar as denúncias e assegurar o acesso à justiça e a responsabilização dos agressores. A condenação efetiva, com penas proporcionais e integradas a medidas preventivas e reparadoras, é essencial para romper o ciclo da impunidade.