Polêmica no transporte público
Com menos ônibus nas ruas em função da greve dos rodoviários, a espera nas paradas exigiu muita paciência, sem falar na disposição para encarar os coletivos superlotados
Ontem, os usuários do transporte público de Manaus tiveram mais um dia de provação. Com menos ônibus nas ruas em função da greve dos rodoviários, a espera nas paradas exigiu muita paciência, sem falar na disposição para encarar os coletivos superlotados. Os trabalhadores do sistema exigem reajuste salarial e a manutenção dos empregos dos cobradores.
Sobre este último pleito, é necessário avaliar com máximo cuidado a possível ampliação das atribuições dos motoristas, que podem ser responsáveis também pela cobrança das passagens, excluindo a figura tradicional do cobrador. Infelizmente, é fato que a função de cobrador está em transformação.
Em diversas cidades, o motorista já acumula as funções. Segundo dados da Associação
Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), a figura do cobrador foi completamente extinta em 33 cidades. Mas é preciso considerar que, em muitas
destas, o nível de qualidade e organização do sistema de transporte público torna a medida menos traumática. Pagamento exclusivo com cartão e outras soluções eletrônicas,
e número adequado de veículos nas ruas para evitar superlotação foram algumas
providências tomadas para que os cobradores pudessem ser retirados sem sobrecarregar os motoristas. Essa está longe de ser a realidade de Manaus.
Outro aspecto a se considerar é o legal. As empresas argumentam que a medida está
dentro da lei, uma vez que não configuraria acúmulo de funções. De fato, alguns
tribunais já têm decisões nesse sentido e em 2020, o Tribunal Superior do Trabalho
(TST) reafirmou que o motorista de ônibus pode acumular a função de cobrador. Ainda
assim, há uma enxurrada de ações judiciais a respeito do tema. Também há projetos de
lei tramitando na Câmara que proíbem os motoristas-cobradores, de modo que o assunto
está longe de ser plenamente pacificado.O impacto social, com desemprego dos cobradores é outro ponto.
De acordo com as empresas, parte dos cobradores será remanejada para outras funções, como a comercialização de cartões, mas, como o principal objetivo é reduzir custos, é certo que haverá muitas demissões. O assunto é dos mais polêmicos e, em meio
ao fogo cruzado, por enquanto, o principal prejudicado é o usuário do transporte
público.